ESPECIAL: QUANDO O JOSNALÍSTICO SE CONFUNDE COM O POLICIAL


Reproduzimos na sua integridade o artigo escrito pola redaçom do portal de informaçom galizalivre.org da análise a respeito do tratamento da informaçom que fixérom os meios de comunicaçom tanto privados coma públicos manipulando e intoxicando, combertindose num braço mais da repressom.

Redaçom/ Reproduçom da versom policial e silenciamento das outras, manipulaçom, intoxicaçom e até ensanhamento som as pautas que estám a seguir jornalistas de meios públicos e privados neste operativo contra o independentismo galego. Já antes de ontem reproduzimos a nota de imprensa do Ministério do Interior  como pequena mostra da independência jornalística à hora de redatar as “notícias” sobre a disidência política contra o Estado espanhol. A nota, que foi reproduzida a pés juntos na maioria dos jornais, mesmo especificava que a informaçom podia ser empregada na sua integridade sem necessidade de citar fonte.

 

Jornalistas sob ordens policiais

Desde o começo do operativo, a umha hora nom especificada da madrugada da passada quarta-feira, os jornalistas obedecérom as ordens de nom dar notícias até passadas as três da tarde, de facto que foi o galizalivre.org, um meio nom profissional, o primeiro em dar a notícia do operativo. Desde esse momento, e levantada a veda policial ao silêncio mediático, as notícias prodigárom-se em lançar especulaçons apresentadas com carta de vericidade. Assim, a maioria dos parágrafes das notícias eram referidas a especulaçons ou interessados repassos históricos pola luita armada galega, como a morte de um guarda civil numha açom do Exército Guerrilheiro (há vinte e dous anos!). Este foi o caso de um dos primeiro meios em dar a nova, a Rádio Galega, que dedicou dous dos quatro parágrafes da nova a repassar a história do EGPGC, algo assim como se cada notícia sobre a Vicepresidência da Junta da Galiza dedicasse a metade da sua extensom a falar da militáncia fascista do seu responsável no passado.

Nom entanto, no apartado referido aos dados em bruto do operativo, a confussom reinou até o dia de hoje ajudando a criar um clima de temor nas famílias e amizades das pessoas detidas. Diferentes versons, e até contraditórias entre sim, sobre o número de pessoas detidas -a TVG chegou a falar de seis-, o lugar onde se efectuárom as mesmas, etc. A inventário de todos os errous e/ou manipulaçons desta ordem poderia cansar às nossas leitoras.

 

Imaginaçom ao poder!

Se à hora de apresentar os dados objetivos os jornalistas fôrom torpes, na de especular sobre as supostas intençons das pessoas detidas fôrom atrevidos sem complexos, assim como à hora de decretar condenas sem falta dos fastidiosos julgamentos do cacarejado Estado de direito.

Aí destacou Jorge A. Rodríguez, jornalista da redaçom madrilena do El País, quem intitulou a sua nova “Detidos em Vigo dous terroristas que atentárom contra a casa de Fraga”, se bem no corpo da notícia se rebaixava a contundência da afirmaçom matizando que as duas pessoas estám “supostamente relacionadas” com a “órbita” do grupo que atentou contra casa natal de Manuel Fraga. As fontes policiais de Jorge A. Rodríguez afirmavam depois que os detidos “som os autores de outros atentados” e no momento da detençom “pretendiam atuar contra interesses da Junta”. Pouco importa que às poucas horas modifica-se o titular por outro mais mol, o objetivo já estava cumprido.

 

A eficácia das palavras fetiche

Com o transcurso das horas, e sem mediar qualquer retificaçom, as pessoas detidas passárom de ser “as autoras do atentado na casa de Fraga” e estar a piques de atentar “contra interesses da Junta”, a mudar de planos para atentar contra os príncipes de Espanha na sua visita à Corunha e ainda sabotar a Delegaçom do Governo nos atos pola Constituiçom espanhola hoje. Pouco importa que sejam meras especulaçons mediáticas, e que no futuro se desmentam -o julgamento poderia-se dilatar até dentro de três anos como máximo, um milénio para os tempos modernos da anesia programada-, o efeito já está logrado. E aí levam a palma os jornalistas de La Voz de Galicia: “A polícia frustra na Corunha um atentado horas antes da chegada dos príncipes” (capa de La Voz 01-12-2011); “A bomba encontrada aos terroristas tinha capacidade para causar um massacre” e “Os detidos preparavam um segundo atentado hoje, cerca da Delegaçom do Governo, durante os atos da Constituiçom” (capa de La Voz 02-12-2011). Palavras fetiche lançadas ao ar, de escasso rigor científico ou informativo, mas intercambiáveis e mui eficazes simbolicamente: “massacre”, “cloratita”, “dinamita”, “terrorismo”, “radical” [1]. Já vimos nos últimos dias como jornalistas botados a alquimistas convertiam a lixívia do Froiz num potente explosivo.

Na realidade nada se sabe ainda com certeza sobre os motivos da detençom ou possíveis sabotagens frustradas, mas a gramática da seduçom e a manipulaçom é mui simples: basta colocar a notícia das detençons junto com umha galeria de fotografias da sabotagem à casa do ex-ministro franquista para que o leitor realize umha associaçom direta. O texto miúdo, longe dos titulares espetaculares, reduze a possibilidade do atentado contra a visita da realeza espanhola a “umha das hipóteses” manejadas pola polícia espanhola. Mas chega com colocar ao lado da notícia outra galeria de imagens intituladas “Atentado frustado na Corunha”, que na realidade só contém fotografias dos registos nos domicílios de dous dos detidos, para dar-lhe efeito de verdade.

 

A pistola e o “perigo português”

Mas faltava ainda o fetiche predileto dos filmes de “bons” e “maus”: a pistola. Segundo La Voz de Galicia e outros meios a polícia estaria a procurar umha arma de calibre 7,35 mm que teriam comprado no “mercado negro português”. Umha simples consulta na rede serve para comprovar que tal calibre há décadas que nom se emprega, e nom se fabrica já muniçom para ele. A alusom ao “mercado negro português” toca outro dos fetiches favoritos dos jornalistas “especializados” no independentismo galego, o do perigo português: “empregam o galego lusista”, “refugiam-se em Portugal”, “reivindicam a anexom do Norte de Portugal” (sic), etc. Nom podia faltar, tampouco, a alusom à AMI (“a que se considera viveiro de Resistência Galega”), alvo de umha campanha de difamaçom mediática constante desde a sua constituiçom a começos da década de 90.

 

Criminalizaçom de centros sociais

O mesmo procedimento antes citado: fazer coincidir duas imagens para que automaticamente o leitor estabeleça umha relaçom entre elas, foi a estratégia empregada pola polícia espanhola para estender o temor a vários centros sociais do país: a Revolta, Bou Eva e Faísca em Vigo; a Revira em Ponte Vedra, e o Arredista em Compostela. Chegou com colocar ao lado deles as patrulhas da polícia espanhola para lançar à sociedade a mensagem delirante de que nesses locais públicos e de atividade conhecida, se preparam bombas. No caso do Arredista e a Revira, a polícia permaneceu desde a manhá até os registos da noite diante deles, impedindo o acesso aos locais por parte da gente dos mesmos. Umha manifesta ilegalidade que nengum jornalista tivo a bem sinalar. Algum mais audaz, da agência Efe, mesmo conseguiu dar a volta à omeleta: se na realidade a gente do Arredista e Revolta se concentrárom diante dos seus locais para denunciar o precintado ilegal -sem ordem judiciária- do mesmo, o jornalista da Efe escreveu que a polícia espanhola se achegou a estes locais para vigilar depois de que se produzisse umha concentraçom “ilegal” de vários independentistas às portas deles.

Compre parabenizar à gente do CS Arredista, já que em poucos meses de existência e mesmo permanecendo pechado por mor da mudança, se tornou, segundo os jornalistas do regime, num lugar “emblemático do independentismo galego”, se bem o detido nunca até o registo passara por ele.

 

Criar um clima de desconfiança entre a militáncia

Num movimento tam vigilado e filtrado policialmente como é o independentismo galego, um dos alvos prediletos do tándem mediático-policial é o de gerar desconfianças entre os seus membros através de difamaçons sobre supostas delaçons, chivatos, etc. Isto fijo-o mui bem um tal “M.F.” de La Opinión, quem assinou o artigo “Golpe ao terrorismo independentista galego” (01-12-2011) no que se dizia que “outras fontes conhecedoras do operativo apontam que um dos principais detonantes produziu-se na passada fim de semana nas jornadas lúdicas celebradas por grupos okupas no Bairro do Cura de Vigo. Ali teriam-se realizado comentário que delatárom a suposta implicaçom dos detidos em ataques perpetrados na comunidade”. Do galizalivre.org consultamos sobre isto a ativistas do CSO Bairro do Cura, quem fôrom mui talhantes ao respeito destas palavras: “é pura intoxicaçom, pois nengum dos quatro detidos passou polo CSO Bairro do Cura. Apenas J.R., justo na manhá em que a detivérom”. Aliás, a gente que sim participou das assembleias do CSO nega rotundamente que no local se falassem de tais temas.

 

Gíria do franquismo

A tom empregado face o movimento independentista foi o habitual. Os mesmos jornalistas que apenas falam nas suas páginas de acontecimentos relacionados com a repressom ou a criminalizaçom, e que silenciam premeditadamente a ingente atividade quotidiana do movimento, dirigem-se ao independentismo com palavras como “grupúsculo”. Nesta ocasiom renovárom a gíria e falárom mesmo de concentraçons de um “limitado grupo de membros do grupo Ceivar”, obrigando-nos a pensar onde é que se vírom manifestaçons com umha afluência ilimitada de pessoas e reabriando a polémica com George Cantor sobre a existência de conjuntos infinitos. Por sua parte Alfonso Villagómez, magistrado do Tribunal Superior de Justiça da Galiza, assinou um artigo no El Correo Gallego no que voltava à terminologia que o franquismo confecionou contra o Exército Guerrilheiro da Galiza anti-franquista, falando de “umha agrupaçom de malfeitores que estám sempre detrás, pola sua covardia caraterística” dos ataques “contra cidadaos de bem”. Nom em vao começou a sua carreira jurídica em pleno fascismo, sendo o juíz mais jovem em chegar à judicatura  na Espanha franquista, além de outros méritos, como ser o “Gallego del mes de Agosto” de 2010 segundo o El Correo Gallego.

 

A voz dos matons

 Sobre o tom abertamente matom, fica a pérola de La Voz de Galicia sobre a concentraçom de solidárias de ontem na Corunha: “Figérom-no [manifestar-se em Vigo] até que chegou a polícia, como sucedeu a noite passada nos Cantons da Corunha. Três furgonetas da Polícia Nacional bastárom para que a faixa reivindicativa ficasse abandonada na rua”. Pessoas que acudírom à concentraçom da Corunha, consultadas polo galizalivre.org, exprimírom a sua surpresa, sinalárom que se trata de umha mentira, além de nom haver jornalista nengum cobrindo a concentraçom, polo que se deve tratar de umha “fonte” policial. Nom estranha já ver como os meios de comunicaçom acolhem sem pudor nengum declaraçons nas que efetivos policiais se gabam do terror que podem impor às pessoas detidas, como quando José Freire dixera em Vtelevisión que “quando os vés nos calabouços [os independentistas] perdem toda a sua valentia que tenhem nos seus momentos importantes”. O secretário geral do Sindicato Unificado de Polícia na Galiza seguramente conheça bem o nível de terror que se produzem nos calabouços após o seu passo pola Polícia Armada espanhola durante a Transiçom, e o seu passo por Pamplona e Bilbao nos anos mais duros do conflito basco.

 

O tratamento dos detidos

 Além da completa ausência da presunçom de inocência, o tratamento mediático sobre as pessoas detidas enquadra-se numha estratégia ancestral por desumanizar ao inimigo e, polo tanto, fazer legítimo o emprego de todo tipo de armas contra ele. Todas conhecemos vários exemplos de como noutras latitudes os inimigos políticos recebem nomes de animais com a finalidade de desumanizá-los, como os espanhóis quando colonizárom América insistiam em que os indígenas “nom tinham alma” para justificar as suas matanças. Estes seres desumanizados por um poder que pretendia exterminá-los chamárom-se “meigas”, “rojos”, e agora “terroristas”. Mas, como em todo, La Voz de Galicia continua noutra época, e no seu editorial oficioso, o “De Sol a Sol”, falava das pessoas detidas -que qualifica de “aberrantes niñatos”- como “apestados”, arquetipo do maligno na Idade Média e nos colégios de primária. Para completar o seu quadro maniqueio -num conto apenas digerível pola crianças que mercam La Voz- apareceu o príncipe salvador: “Pero esta vez, las fuerzas de seguridad los desarmaron y nos salvaron. Solo queda desarticularlos para siempre”. So faltou o colorín colorado…

 

Reporteiros da TVG ou aves preeiras?

A organizaçom anti-repressiva Ceivar deu antes de ontem umha conferência de imprensa às 12 da manhá na livraria Couceiro de Compostela, na qual se negou a aceitar perguntas e proibiu o acesso ao cámara e à jornalista da TVG. As razons som dous dos episódios mais bochornosos do meio público galego.

O primeiro concerne ao Telejornal das nove da noite do 30 de dezembro (ver aqui; note-se que o titular fala de seis detidos e o apresentador de três). Nele a jornalista Natalia Penas, que tivo graves problemas para pronunciar a palabra “independentismo”, dá passo a umha narraçom que diz que: “segundo pudo saber a televisom da Galiza, no momento da detençom tinham artefactos preparados para estoupar e também pólvora prensada e detonadores. Umha informaçom que nom rejeitam os próprios independentistas que esta tarde se manifestavam na capital galega.” A continuaçom, e com o maior dos descaros, entresacam umha declaraçom de três segundos dumha representante de Ceivar, totalmente descontextualizada, na que parece asseverar o dito anteriormente pola reporteira: “pola experiência sabemos que pode ser assim e é assim”. De Ceivar denunciam que “estas palavras forom totalmente terxiversadas e colocadas numha frase que os proprios jornalistas compuxerom como lhes deu a ganha e sem rigor algum. Dando-lhe a volta totalmente às palavras da nossa companheira”.

O segundo episódio produziu-se no Telejornal do passado meio-dia. A notíca sobre as detençons (veja-se desde o minuto 4:30) foi acompanhada da filmaçom da incursom que um cámara e um repórter da TVG realizárom pola manhá na casa familiar de E.V.D. em Compostela, teimando em gravar contra a sua vontade à mai do detido. De Ceivar sinalárom que “consideramos lamentável o que figérom com a família de Eduardo Vigo, umha das pessoas detidas. Aparecérom na casa de seus pais o dia 1 pola manhá, e começárom a gravar, apesar de que a mai do detido lhes dixo que abandonassem a sua propriedade. Depois de momentos de tensom a mai do detido botou aos jornalistas. Estes miseráveis, que se fam chamar jornalistas, emitírom imagens da mai de Eduardo Vigo botando-os da sua propriedade”. Resulta repugnante comprovar como um jornalista da televisom pública exerce de paparazzi com tam poucos escrúpulos como para comparecer em busca de morbo na propriedade privada de umha família a manhá depois da detençom dum filho que permanece incomunicado e sem acesso a um advogado, sob a “lei antiterrorista” que dúzias de organismos internacionais como a ONU vem como um amparo para a tortura e os maus tratos.

 

Esta reportagem foi redigida há dous dias, polo tanto, faltaria ainda por incluir as dúzias de novos casos de manipulaçons surgidos nos meios desde entom, sinalamos como os mais importantes o burdo relacionamento da resistência galega com a ETA, organizaçom da basca da que supostamente as sabotagens galegas recolheriam “a estafeta”; e o que é mais grave, o silenciamento absoluto da posta em liberdade sem cargos de umha das pessoas detidas pré-julgada na imprensa como “terrorista”.