Recevemos nova postagem do patriota galego Ugio Caamanho desde o centro penitenciário de Navalcarnero (Madrid). 12/12/2005, Segunda-feira. Estou lendo umha colecçom de textos do Partido dos Panteras Negras, um movimento realmente interessante, como em geral todo o dos negros norteamericanos. Este partido, nacionalista e marxista, foi golpeado duríssimamente polo Estado com todos os meios, incluídos os mais sujos. O seu “Chairman”, Bobby Seale, caiu preso acusado da morte dum confidente, e desde o cárcere escreveu umha data de textos para os seus companheiros, para a comunidade negra e para o mundo em geral (também para mim e para nós, naturalmente), com umha claridade, umha energia e umha lucidez que me assombram. Como sou incapaz de escrever algo semelhante com a minha mao, traduzo (o melhor que podo) um trecho seu: “Se simplesmente começássemos a compreender a necessidade de nom sermos ferramentas do agressor fascista! (...) Vós sabei-lo, companheiros. Até o último de vós o sabe. Vós vides do bairro, irmaos negros, e conheço-vos. Conhecedes-me tam bem como vos conheço eu. Muitas vezes dividimo-nos em grupos para luitar e seguir avante. Alguns de vós talvez estejais a fumar porros, bebendo, tratando de fazer-vos com algumha roupa limpa e perseguindo as irmás por aí. Nom sodes diferentes de outros irmaos; só que nós politizámo-nos. Simplesmente politizámo-nos. Figérom-nos presos políticos porque nos levantamos contra a clase dominante fascista, contra esses fascistas, porcos racistas, que ocupam as nossas comunidades como umhas tropas estrangeiras ocupam território. Somos o mesmo, só que estamos em dous sítios diferentes.” 16/12/2005, Sexta-feira. É interessante que o Barça se pronuncie a favor do Estatut. É interessante também a crítica que suscita: o futebol nom deve misturar-se com a política, os desportistas nom devem meter-se nos assuntos dos políticos. O mesmo argumento que nos lançaram alguns quando a LOU, e tantas outras vezes: nom politizeis o movimento estudantil. Mesmo dentro do independentismo se nos dixo (igual até eu próprio o tenho dito, vai tu saber), esse é um tema para a organizaçom política, nom podeis entrometer-vos vós (vós: organizaçom juvenil, associaçom cultural, ou o que for). Em resumo: “a política é cousa dos políticos.” Neste sentido acertárom outros muito melhor e muito antes que nós; por exemplo os da Casa Encantada, que sem descuidar o seu projecto principal (sociocultural e de bairro), nunca olvidam a sua condiçom de cidadaos e portanto os direitos e deveres políticos (ou “antipolíticos”, melhor dito). Assim que quando cumpre, por umha crise ecológica ou um caso de corrupçom ou guerra, simplesmente juntam-se e organizam cousas, sem sequer preocupar-se polo fetichismo das siglas: fam, isso é todo e ademais basta. É pura saúde democrática: a gente participa naturalmente na vida social. Também as organizaçons, tenham a funçom principal que tenham. Pergunto-me se ainda hoje haveria reticências a violar esses cânones da política oficial; se umha associaçom cultural reintegracionista entenderá como lógico fazer umha campanha contra o PGOU, ou a favor do transporte público e contra o carro, ou pola autodeterminaçom. Ou se a contrário pensará que isso “é cousa da organizaçom política”, como se ainda a houver e, ainda se assim for, como se alguém pudesse desertar dos seus compromissos colectivos. Suspeito que cada dia existem menos preconceitos e menos fetichismos neste tema; oxalá nom me equivoque, porque um começa por delegar a acçom política no “partido”, depois encomenda a criaçom cultural aos “intelectuais e artistas”, prossegue confiando a luita laboral aos sindicatos, e acaba por deixar a segurança e autodefesa em maos da polícia (ou do seu reverso popular, que no nosso caso nom existe e ademais nom pode desculpar a ninguém de levar a sério essa fasquia da vida social).