Continuamos com a publicaçom dos "posts" que nos envia o preso independentista galego Ugio Caamanho, com reflexons sobre a vida em prisom e reflexons político-pessoais. Quarta-feira, 28 de Setembro de 2005 Isto vai ser mais difícil de que pensava. Faz-se impossível manter um ritmo de trabalho e de vida aceitável se cada pouco te estám levando a isolamento, mudando-te de módulo ou de prisom. Desde o mês passado voltei ao “chopano” (já estamos…), transferírom-me ao módulo 5 e depois a Navalcarnero. E a Giana dérom-lhe o mesmo tour, mas primeiro passou polo módulo 11, onde era a única política; vaia semaninha deveu passar a pobre. Bem, polo menos assim conhecim a Gorka, Ieltxu e Andoni, este último um ex membro de Comandos Autónomos Anticapitalistas com quem compartilhei cela dez dias. Boa gente, claro. E os sociais do módulo também, passei boas horas lá. Agora, módulo 2 de Navalcarnero. O péndulo deu umha volta e agora som eu o desafortunado: mentres Giana compartilha módulo com umha cheia de políticas, umha delas galega até, e dispom de cela para sim própria, a mim toca-me apandar com um módulo no que apenas há um outro político (Eduardo Garcia, anarquista), e compartilho cela com comuns. Para dizé-lo todo preferiria voltar a liá-la, ainda sabendo que acabaria por viver permanentemente em isolamento (artigo 75 do Regulamento Penitenciário), mas alguns companheiros comentam-me que melhor nom façamos muito ruído por enquanto, e enfim, cumpre manter a perspectiva e agir conforme os ritmos de fora. Mentres tanto começo recuperar o compás. Chegam as primeiras cartas, escrevo algumhas linhas, preparo os estudos… e principalmente discuto com o Eduardo. Ah, mas nom as típicas e aborrecidas liortas entre anarquistas e nacionalistas, naturalmente. Projectos concretos. A cousa-em-si, numha palavra. Porque resulta que na práticas as coincidências som infinitamente superiores às discrepáncias, e ademais as nossas ideias tenhem muitos pontos em comum. Assim para começar preparamos já dous ou três bosquejos de projectos bem para levar a cabo pessoalmente (ele vai saír, ao máximo, em dous anos), bem para propó-los à gente de fora (no meu caso). Veremos em que dá esta desconcertante aliança. Sexta-feira, 30 de Setembro de 2005 Estes dias nom se vê mais que arame farpado. Sobre os muros da prisom e das sucessivas balizas que nos separam do páramo circundante; acima de balizas semelhantes, nas fronteiras de Ceuta e Melilha para resistir as acometidas dos descamisados do mundo. Nos dous casos servem para o mesmo: para manter a salvo as despensas carregadas de gelados e DVDs, ameaçadas polos pobres de dentro e fora. Para isso, é dizer, para que os ocidentais sigam a gozar de muto mais do que o que lhes corresponde mentres milhons passam fame, e também para seguir dando-lhe a razom ao pessimista de Levi Strauss, que resumiu a nossa época na fórmula “radioactividade, zyclon B e arame farpado”. Mas os presos persistem as tentativas de fuga e os imigrantes nom deixam de buscar métodos para entrar. O resultado, pretos mortos pendurados polo pescoço do arame farpado. A soluçom, segundo o ministro, enviar legionários armados e incrementar o tamanho das balizas. Mas, se essa é a soluçom, entom… qual era o problema? Que seguem entrando, naturalmente, que seguem entrando. Porque o essencial é preservar este paraíso de consummo e opulência, para nele se podam seguir cultivando as magníficas flores da civilizaçom; a democracia, as boas frases sobre os direitos humanos, todo isso. E há quem se surprenda de que, umha vez ultrapassadas as cuitelas de arame, alguns rebentem em explosons de ira e justiça contra este sistema e os seus beneficiários. Com certeza dentro dalgumhas geraçons, quando se recorde ou estude esta época, apenas essas explosons permitirám algum género de absoluçom para nós. Como dizia o outro, Clame um anaco de serra –toxo, herança de lama triste- para esquece-lo arame de espíritos que guia os nossos passos. Quarta-feira, 5 de Outubro de 2005 Ainda nom levo muito tempo dentro e assim é impossível fazer-se umha ideia definitiva da questom, mas até o de agora acho que houvo dias bons e dias normais; maus, propriamente, nenhum. Quero dizer, nenhum parecido com a ideia típica da prisom: angústia, medo, depressom. Mesmo no isolamento e nas “cundas” –transferências de prisom ou aos julgados- experimentei tensom, acaso breves descárregas de adrenalina, mas nada grave, até refrescante havida conta da monotonia quotidiana. Como me escreveu um companheiro, “a felicidade (se existir) está em nom aguardar nada ou quase nada; um soldado está satisfeito quando espaventou o frio, tem roupa enjoita e fuma tranquilamente o seu cigarro”. Pronto, bem sei que o efeito da prisom é acumulativo e os dias maus ham chegar, com certeza. Mas também se irám por onde vírom, e ademais por agora nom toca e podo sentir-me reconfortado com isso. Hoje, por exemplo, foi um dia bom, muito bom, com vários pequenos lujos que me proporcionam a satisfacçom singela do soldado: coincidim com os bascos na escola, permitim que Eduardo me machacasse com a sua disciplina anarco-estalinista no ginástico, tivem cinco minutos de conversa boa com os pais (há chamadas que deixam bom sabor e chamadas que doem porque parecem arrincar-nos novamente do País, mas nom sei de que depende que umha em concreto acabe sendo dum ou doutro tipo. Talvez dos temas, talvez dos estados de ánimo), depois três cartas (até que enfim!), licença para ficar na sala de estudo em lugar do pátio, e… três instáncias com resultado positivo e apenas um “No procede”! A acabar o dia estava tam contente que até respondim as “Buenas noches” do carcereiro. Terça-feira, 11 de Outubro de 2005 Este domingo vinhérom um ou dous autocarros de asturianos para dar-lhe um alegrom a Fernando, um nacionalista asturiano que prendêrom há cousa de um mês por acçons contra sedes de partidos espanhóis. Vaia festa montárom! Em toda a prisom nom se falava de outra cousa. É curioso ver umha mobilizaçom destas desde dentro, depois de participarem nalgumha marcha às cadeias polos do EG. Realmente revolucionam o cárcere e levantam o ánimo de qualquer um. O caso de Fernando é curioso, embora bastante duro. Eduardo e eu levávamos cousa de um mês à sua procura, pois sabiamos que estava em Navalcarnero, mas nom dávamos com ele, nem sequera por meio dos bascos, que estám em quase todos os módulos. Afinal soubemos que nada mais chegar se plantara polos mesmos motivos que eu em Soto: para dispor de cela individual ou compartilhar apenas com outros presos políticos. Só que ele tivo menos sorte: soubem hoje que desde esse dia vive em isolamento (“chopano”, em gíria carcerária). Parece que a directora de Navalcarnero tem mal génio… Contárom-mo os bascos, que passam as fins de semana lá e pudérom falar com ela. Polo menos parece que anda bem de ánimo e decidido a seguir com a peleja. O qual é encomiável, dado que nom tem companheiros asturianos presos, e ademais nom esperou nem a tomar contacto com o cárcere para começar a liá-la. Dá-me inveja e ademais provoca-me remordimentos todo isto. Talvez se eu também me plantasse… Mas a cousa está assim e nom vou mudar de atitude agora. Por umha parte desejaria que renunciasse à reivindicaçom, voltasse ao módulo e começasse a fazer vida normal, porque afinal aqui estamos sempre fora do módulo com cursos ou ginástico, de modo que os políticos andamos sempre juntos e o de compartilhar cela leva-se bastante bem, se um tem sorte com o preso que lhe toque. Mas isso deve-se a puro egoísmo, porque o que quero é conhecê-lo e intercambiar ideias e informaçom com ele. Igual o conheço igualmente porque me acaba de chegar o “parte” polo primeiro “plante” de Soto: dez dias em chopano. Por certo, e pensando no que me teria acontecido a mim de ter mantido a sua atitude: parece que lhe vam aplicar o “artigo 10” do Regulamento Penitenciário e levá-lo a Algeciras, em condiçons de 1º grau. Em suma, duas horas de pátio ao dia, escassisimo trato com outros presos, máxima dureza dos carcereiros. E… umha cela individual para ele só. Quarta-feira, 12 de Outubro de 2005 Já está, pensei, umha outra vez a pôr-nos em ridículo ante todo o mundo. Agora que nem os espanhóis mantenhem aquilo de amosar enormes bandeiras para demonstrar o grande que a tenhem, vai o inefável alcaide da Corunha e toma o relevo, para celebrar o Dia da Raça e de passo fazer frente ao questionamento configuraçom do Estado. Enfim, o 12 de Outubro resumia-se nos telejornais entre a parada militar (para que recordemos quem manda e por que meios) de Madrid e a fanfarronada do Francisco Vázquez. E eu comecei sentir vergonha. Estas cousas (a era Fraga, o caciquismo, estas sobre actuaçons à hora de render pleitesia) podem-se relativizar todo o que se queiram. Sei lá, os meios de comunicaçom, o auto-ódio, a miséria… Mas acho que perder a capacidade de ruborizar-se nom nos serviria mais que para perder também a capacidade de cabrear-nos, e portanto de reagir. De modo que estava já envergonhado, a pensar no País, e também nos presos políticos doutros povos com os que me encontraria pola tarde e aos que teria que dizer qualquer cousa que descarregue um bocado do denigrante da situaçom. E entom aparecem no écram duas companheiras da AMI, com bandeiras da Pátria e gritando “Com Espanha, Nunca Mais!”, e depois abre-se a imagem e há muitos mais, e muitas mais bandeiras e gritos. Telecinco, que nom tratou mal a concentraçom, diz que som quarenta nacionalistas e que nom houvo maior problema. Mas nom creio que Francisco Vázquez opine o mesmo… Surpresas como esta, das que te inteiras pola tevê e sem prévio aviso, podem fazer ver as estrelas a um preso, e fazê-lo passar da vergonha ao orgulho num só fotograma. À tarde pudem presumir, pudem também chamar às companheiras que reconhecim: em realidade sim houvo distúrbios, um detido e quatro feridos. Mas estavam contentes e satisfeitos. E eu, mais que contente, eufórico, porque ademais hoje autorizárom-me oito amigos para que me venham visitar. Comentei-lhe-lo e parece que vam vir já este sábado. Em dias como hoje é difícil recordar que estou preso. Terça-feira, 19 de Outubro de 2005 “(…) Algo que lhe dá umha dimensom muito mais ampla, e também formosa, à nossa luita. Dei-me conta de que somos País, e assim o sentimos. E os assassinos, os ladrons, os sequestradores levárom-me um irmao (…)”. Distinguir um preso político dum preso social é tam fácil como difícil explicar quais som as diferenças. Mas leva tanto tempo como dar umha simples olhadela polo módulo, em seguida dás com os presos políticos, embora nom vistam camisolas com consignas. Deve ter algo que ver com a inclinaçom dos ombros, ou com a expressom dos olhos ou da face… Algo que anuncia aos quatro ventos Eu nom estou preso, sigo no meu país e na minha luita, com os meus companheiros e amigos. Esse ar contrasta com o do resto dos reclusos, verdadeiramente encerrados como animais, alguns selvagens e outros já domesticados, angustiados pola limitaçom dos movimentos e com o seu universo privado reduzido ao tamanho dum pátio de 50x30 metros. Nesses casos os contactos com o exterior apenas servem para certificar a magnitude do que estám a perder, em muitas ocasions melhor nom contactar em absoluto. Mas para um político receber correspondência, telefonar, comunicar ou ter um vis-à-vis significa seguir vivo aí fora: seguir a participar na vida colectiva e pessoal, conhecer o estado da sua dimensom comunal. Em resumo, seguir estando fora. Estas cousas, como digo, som difíceis de explicar a quem nom as entende previamente, ou a quem é incapaz de senti-las. Mas comprová-lo é tam imediato como duas imagens: a primeira, a dum pátio com políticos e sociais, estampa difícil de visualizar para quem nom estivo nunca dentro; a segunda, a mesma mas invertida. É dizer, os companheiros que estám em liberdade e se sentem presos, como nós nos sentimos livres. Essa é a imagem que me desenhou em poucas frases umha irmá numha carta recente, em parte reproduzida acima. Parece impossível fazer perceber esta sensaçom de pertença e de dimensom colectiva da existência à gente mais modelada ao estilo moderno (consumistas, individualistas, egocêntricos,…), desde logo impossível com os presos deste módulo. Alucinam com a data de cartas que recebemos Eduardo e eu, e com que muitas no-las enviem desconhecidos solidários. E alucinam com o sossego ao afrontar condenaçons muito maiores às suas. Mas o curioso é que também o Eduardo alucina um bocado com todo isto. Parece-me que a comunalidade implica em muita maior medida aos movimentos identitários do que aos baseados na questom laboral, classista. E alegro-me de pertencer a um dos primeiros.