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Publicamos as últimas postagens redigidas pola presa independentista galega Giana Rodrigues e correspondentes às datas entre o 8 e o 18 de Novembro do ano passado. O texto inclue reflexons sobre a situaçom da nossa língua, a realidade do machismo nos centros penitenciários ou a operaçom policial contra a AMI iniciada o passado 14 de Novembro e ainda aberta. Assinalar, por último, que o retraso na publicaçom destes escritos sobre a sua data de elaboraçom é devida às graves restriçons que suporta na actualidade a comunicaçom postal da presa galega, situaçom que queremos denunciar expressamente como mais umha forma de intervençom repressiva contra a militante independentista. Podem-se ler todos os blogues anteriores no sítio web http://www.com-os-pes-na-terra.blogspot.com Terça-feira, 8 de Novembro de 2005 Ultimamente ando dando-lhe voltas à situaçom do galego no nosso país, sobretodo após algumha carta que me tem chegado de espontáneas que se declaram espanhóis-falantes quotidianas, mas que se dirigem a mim em galego como umha questom de respeito. É evidente que existe umha contradiçom clara (umha de tantas) a este respeito, que nom deve ser o suficientemente clara como para que permita a estas pessoas agir em consequência. A dia de hoje, falar em galego numha faixa de idade que compreende entre os 13 e os 30 anos é, salvo excepçons, umha decisom política. Fazemos parte dumha mocidade (entre a qual me integro) que foi criada maioritariamente em espanhol, dentro da que umha parte da mesma ao adquirir “cultura política” se posiciona perante a dualidade espanhol-galego dependendo do seu achegamento ideológico. Optar polo galego nom é umha decisom singela, seria muito cínica de considerá-lo de outro modo: há que ultrapassar as próprias contradiçons, sentimentos de vergonha e auto-ódio e sobre todo a própria olhada inquisitória de umha sociedade que rechaça o seu próprio ser; há que dar também muitas explicaçons à gente que te rodeia, explicaçons que, em muitos casos, te acompanham o resto da tua vida. Mas é um grave erro considerar que se pode falar em espanhol de forma quotidiana, e optar polo galego em contadas ocasions para assim poder considerar-te a ti própria como umha pessoa respeituosa. Falar em galego nom é algo que devemos considerar de respeito face nós por parte de quem nos fala: é umha NECESSIDADE, nom podemos permitir-nos o luxo de andar com panos quentes neste tema. Quem esteja politizada e opte por falar a língua imperial, dá-me igual a ideologia sob a qual se esconda: tem que sentir o rechaço do resto, que nos deixamos a pele por ultrapassar esta situaçom. O nosso povo sofre umha humilhaçom colectiva por ser quem é, e a forma que utiliza para saír ao passo dessa sensaçom é adoptar a cultura dominante como própria, sentindo alívio quanto mais acelerada é a desapariçom da sua. A nossa língua é o nosso património cultural mais vivo, mais expressivo, mais real. Grande parte do povo galego leva sofrendo anos de perseguiçom, violência explícita ou implícita e morte com o único fim de desnacionalizar-nos. O império espanhol sabe bem que fórmulas deve usar para conquistar as suas colónias: há séculos usava umha violência extrema baseada no massacre de culturas inteiras, de povos e de pessoas que se resistiam na medida do possível a desaparecer. Vistos os maus resultados que trazia esta táctica, optárom por trocá-la por outra mais subtil e efectiva ao estilo das cristianizaçons forçosas ao longo do mundo. Ridiculizaçom e humilhaçom da sociedade a colonizar e promoçom das formas de vida do império colonizador. O resultado destas acçons trazia consigo que o povo oprimido optasse de forma voluntária por esconder e negar-se a sim próprio e converter-se e reafirmar-se na cultura opressora. Estas atitudes observam-se na Galiza ao longo de todo o século XX (imagem do imigrante que voltava das Américas com a sua língua “esquecida”) e muito especialmente na segunda metade, momento em que um número grande de galegas e galegos optárom por educar as suas crianças na língua “cosmopolita”. Que o galego vai desaparecer é umha evidência, já nom só porque apenas fiquem maes e pais que criem as suas filhas nesta língua, senom também porque grande parte da mocidade galego-falante o é mas sendo “neos”, quer dizer, que falamos umha língua híbrida, sem fonética e que nada tem a ver com a que usam as nossas e os nossos avós de forma quotidiana. A evidência é tam clara que até as instituiçons europeias se sintem com a obriga de dar-lhe o toque ao Estado espanhol pola sua estratégia desnacionalizadora tam clara e que tem como resultado umha perda de galego-falantes com présa e sem pausa que está deixando a cada mais o nosso povo absolutamente soterrado. Tanto é assim, que até instituiçons europeias de absoluta referencialidade e de inegável reformismo perfeitamente assumíveis polo capitalismo, como a Unesco, denunciam a pronta desapariçom da nossa língua. Mas de que nos assustamos se temos um presidente da Junta ANALFABETO, o qual, estou certa, seria capaz de falar chinês com mais soltura do que a língua própria do país que representa? Até o anterior presidente fascista e de inegável sentimento apologista espanhol, Dom Manuel Fraga Iribarne, era quem de falar galego com mais correcçom do que o novo “Torito”. Imaginades-vos ao Zapatero num discurso dizendo “Las españoles votastes de mayoridad a la PSOE”? Um destripamento parecido da língua cervantina seria comentado polos media e pola oposiçom política polo resto dos tempos e até a fim da história. Mas a ninguém lhe parece raro que Tourinho seja um analfabeto de renome, já que “el gallegiño es una lengüiña que tiene por definición el ser mal habladiña”. Temos que parar este processo, o que está perdido é irrecuperável, mas nom podemos perder nem umha palavra mais, nom podemos seguir cedendo, e quem fale em espanhol com consciência de que isso significa nom pode sentir-se cómodo em nengum lugar no que nós estejamos. A nossa geraçom nom pode passar à história como a que fijo desaparecer para semprea nossa língua, e sobretodo está na nossa mao mudar este processo. Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005 Subleva-me a forma em que o patriarcado é assumido como ideologia dominante pola maioria das mulheres. Aqui na prisom as doenças sociais fam-se muito mais presentes e claras do que na rua. Desde o racismo, a pobreza e por suposto o machismo. Neste talego, por exemplo, apreça-se de forma bem distinta do que observava em Soto, mas tam só porque este é um cárcere de mulheres e em Madrid V havia também homens, entom o patriarcado aparece de distintas maneiras. Em Soto chamava-me a atençom toda a aparatosidade de secadores de cabelo, peites e maquilhagens a todo meter todos os dias, tacons e escotes de vertigem que se acentuavam cada vez que as presas saiam do módulo para qualquer cousa, já for para ir ao polidesportivo, umha actuaçom ou para limpar um corredor. Por nom falar da vergonha alheia que dá quando em datas assinaladas (bem fim de ano, natal,…) as presas que tenhem as janelas das celas de cara a módulos de homens lhe apresentam um streap tease nocturno, ou umha representaçom de filme pornográfico ao lésbico com a companheira do “quarto”. As formas de prostituiçom do talego também tenhem as suas curiosidades. As imigrantes que precisam papéis para ficar no Estado e que nom as expulsem ao cumprir meia condenaçom procuram presos espanhóis para casarem, e estes aceitam gustosos, ao troco de ter um corpo no que desafogar-se sexual e emocionalmente sem pagar um peso, ou pagando bem pouco (comprando-lhes televisores, rádios ou roupa). As nom imigrantes ou as que já tenhem papéis também se prostituem (muitas vezes sem serem conscientes) por ter algo de dinheiro no pecúlio de quando em vez. As relaçons que surgem destas situaçons, que som umha representaçom clara da dependência social que sofrem as mulheres face os homens, produzem umha mestura confusa de necessidade económica com sentimentos contraditórios. Por suposto, os homens aceitam alegremente estas relaçons de sexo ao troco de carinho e dinheiro, e elas sintem-se apaixonadas por pessoas que de nom ser quem de pagar por esse amor trocariam ipso facto de apaixonada sem sequer ser conscientes de que esse amor que crem sentir é simplesmente económico. Nom lhes importa quem seja o homem, o seu físico, idade ou motivo polo qual se atopa preso: o que procuram é carinho e sobrevivência (já que a prisom produz umha grande carência dele, e relaçons de amizade baseadas no interesse pola grande situaçom de dessarraigo que vivem as pessoas presas). Assim há presos que se atopam nessa situaçom por torturar, desquartiçar ou matar as suas “companheiras” e ainda assim há mulheres que aceitam ser as suas moças simplesmente porque eles tenhem mais poder adquisitivo do que elas. Parece incrível, ultrapassam os medos que estas pessoas lhes produzem por mera sobrevivência, mas é certo. O poder sexual é o mais evidente de todos os que emanam da ideologia patriarcal e nos cárceres mostra-se ainda mais cruel e claro do que na rua. As formas que tenhem as mulheres de assumí-lo como algo normal, e de interiorizá-lo, som a mostra da efectividade que tem a educaçom machista discriminatória e anuladora com que nos programam. Ultrapassá-lo precisa dum longo processo de conscientizaçom e superaçom que nos acompanha ao longo da nossa vida e que, por desgraça, a imensa maioria das mulheres nom é quem de começar nunca já que o machismo forma parte da realidade “normal” com que olhamos o mundo. Sábado, 12 de Novembro de 2005 Hoje recebim umha visita muito especial. Veu ver-me Maria Bagaria. Fazia tantos meses que nom falava com ela longo e tendido que os 40 minutos se convertérom em 5, a impotência de nom poder abraçá-la, de nom poder manifestar-lhe de forma física o grande carinho que me fai sentir, é algo difícil de ultrapassar, mas poder vê-la, embora seja com um vidro sujo no meio, vai-me deixar contente todo o mês até que poda voltar a atopar-me com ela. É a minha companheira, a minha camarada, a minha irmá; é a minha amiga, a minha confidente, quem melhor me entende deste mundo e com quem tenho compartilhado as conversas mais interessantes da minha vida. Se há alguém que boto em falta sobre todas as cousas é a ela (bom, nom vos preocupedes: em realidade, a muitíssima gente). Muitas vezes mesmo falo com ela como se for o meu alter-ego, ou umha parte escondida de mim própria. Abruma-me a maneira em que tentárom desacreditá-la nom há muito tempo umha parte do “autodenominado” movimento independentista galego, e como o tempo pom a cada quem nom seu sítio, a própria evoluiçom do independentismo galego rematou por desacreditar essas pessoas polas suas injúrias e mentiras. Tentárom deixá-la de louca, de histérica (que comum…) e de pessoa nom válida. Agora deverám tragar-se essa atitude. É umha combatente, feminista intruncável, é activa, inteligente, trabalhadora e sobretodo merecedora de todo o meu orgulho e admiraçom. É evidente que o carinho que lhe tenho e o muito que a quero é um sentimento que traspassa os muros e percorre distáncias, mas, como evitá-lo? Impossível. Nunca com ninguém fum capaz de falar tanto sem pronunciar palavra, nunca ninguém foi quem como ela de entender o que queriam dizer as minhas olhadas, nunca fum capaz de debater com tanto entendimento sobre feminismo e sem conhecer os termos correctos como com a Maria, que ela seja a minha companheira é para mim umha sorte indescriptível. Se estou tranquila pola defesa dos meus interesses de género mentres esteja sequestrada é porque sei que ela está na rua, nom vai permitir o mais mínimo deslizamento neste sentido, como já tem demonstrado. Obrigada, Maria, graças ao teu trabalho contínuo e generoso hoje somos todas um pouco mais livres. Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005 Ontem amanheceu todo nevado, é incrível mas fazia muitíssimos anos que nom via nevar desde menina (mais ou menos 2º de EGB) e foi umha sensaçom estranha, sobretodo cá, por ter a possibilidade de pisar algo que nom seja cimento, um tacto distinto para os pés, os caminhinhos que se vam fazendo polo chao, pelejas a folerpaços, um boneco de neve,… É um prazer que a natureza nom nos negue a sua beleza, até as presas temos a possibilidade de desfrutar dela. Quarta-feira, 16 de Novembro de 2005 Ontem, após fazer-lhe a chamada de rigor ao responsável nacional de Ceivar, inteiro-me de que 10 companheiras e companheiros da AMI fôrom detidas pola Guarda Civil numha operaçom carregada de parafernália e aparatosidade. A picoletada encapuçada, cans, curtando ruas, roubando todo, registando moradas e locais sociais e, logo, as 10, à Audiência Nazi. Nom podo explicar a angústia que sentim, o MEDO com letras maiúsculas, a impotência de estar cá metida, de nom poder estar fora ajudando, mobilizando, organizando a resposta, ainda por cima contabilizando as 5 ligaçons semanais que podo usar e tentando auto-controlar-me para nom chamar todo seguido. Há muita gente que me tem escrito que sentiu medo quando nos detivérom ao Ugio e mais a mim, mas eu nom era quem de entender o por que, nom era capaz de por-me no seu lugar, mas agora podo dizer que sim o entendo. Mais do que medo, pánico, saber todo o que lhes podiam estar fazendo, e que logo o mais provável é que metessem alguém em prisom, e todo isto pola cara, sem nengumha prova de nada. De facto o único que me tranquilizava um pouco era saber que nom estavam sob a “Lei Antiterrorista”, que significava que nom iam estar 5 dias à sua mercé. Antes ou depois algo assim ia passar. É evidente que o sistema repressivo do Estado nom podia continuar tentanto rematar com nós a base de multas. Quando, ao longo do tempo, há umha série de pessoas que demonstram que vam a sério e a por todas pola independência do nosso país, o silenciamento e o roubo já nom lhes valem, nom lhes chegam para apagar as nossas vontades, nem sequer a prisom nos tem assustado, nem a morte nos dá medo. Muito mais pavor dá imaginar os rios cheios de mini-centrais, os montes cheios de “virandeis”, mesmo as costas, o mar de cor preto, a emigraçom, os incêndios, os eucaliptos, a celulose, as autoestradas, as nenas e os nenos falando em espanhol, as corridas de touros, a violência contra as mulheres, o terrorismo que exerce o capital sobre os trabalhadores e as trabalhadoras,… Há tantíssimas cousas que assustam na nossa querida Galiza que nom há repressom que poda dar mais medo do que a nossa própria realidade, o inferno de que falam os cristaos e o que estám criando pedra a pedra estes fascistas. O certo é que nom temos nada que perder, e sim muito que ganhar, mas eu tenho claro que o futuro é nosso. Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005 Afinal, todas e todos livres. A passada quinta-feira ainda estava absolutamente angustiada e ao subir à cela ao meio-dia procuro no teletexto as jos_content sobre a Galiza, e porfim podo respirar tranquila: todo o mundo à rua. Era demasiado, o conflito Galiza-Espanha ainda nom está o suficientemente avançado como para que tomem umha decisom politica desse calado, mais do que nada porque lhes seria contraproducente. Nom podiam empapelar toda essa gente pola cara e sem nengumha causa concreta, o que fariam? Teriam-nas quatro anos em prisom preventiva e logo à rua? A solidariedade move mais gente do que o trabalho simples. Afinal, som os sentimentos e a frustraçom os que nos carregam as pilhas, os que nos dam valentia, quando há gente que queres que está recebendo paus a entrega é maior, e isso é algo que se leva apreendido ao longo da história da humanidade. O Estado espanhol tem um conhecimento sobre repressom bem amplo; quem vai saber melhor do que eles que umha resposta desproporcionada cria o efeito contrário? Se nom jogam bem as suas cartas neste momento pode ser que o jogo se lhes escape das maos. O que nom sabem é que nunca estivo nas suas maos.
 
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