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Desde a prisom de Ávila em que se encontra Giana Rodrigues em regime preventivo, recebemos umha nova data de "posts" do diário da presa independentista galega. Sábado, 1 de Outubro de 2005 Esta semana passárom várias cousas interessantes. Umha delas foi umha bomba de ETA numha área industrial que está de lado da prisom. O certo é que nunca estivera tam perto dumha situaçom assim, mas fôrom curiosas as diferentes reacçons. Estavamos já na cela, deviam ser as 22:00 horas mais ou menos quando se sentiu um estrondo bastante forte produzido pola onda expansiva. Parecia como um portaço muito forte cujo som ia fazendo eco polos corredores da prisom. Aginha começamos escuitar os primeiros gritos das presas pola janela e as carcereiras dizendo pola megafonia “Tranquilas, no sabemos lo que pasó pero fue fuera de la prisión”. Em nengum momento me alterei nem nada polo estilo, nom sabia o que fora, mas podia ser qualquer cousa, algo que cai, por exemplo, e fiquei tranquila a fazer o meu e sem mais. Fora escuitei Marijo dizer “Foi umha bombona, que há um depósito aí ao lado”. Ao dia seguinte inteiramo-nos de que se passara. Por suposto era a comidilha do dia. Umhas dizendo que passaram medo –incrível, mas todo produto dos meios de desinformaçom que é ao que se dedicam-, outras fazendo-se ilusom com que podiam por outra nos muros e assim fugir. Bom, opinions de todo o tipo, mas foi umha experiência curiosa. Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005 Continuando com o tema do petardo, coincidiu que aos dous dias tivemos a última actuaçom da Mercé. Um grupo de moços de distintos países de América do Sul tocárom cançons dos seus respectivos povos. O certo é que gostei muitíssimo, fôrom os melhores de toda a festividade. Bom, pois lá, atopamo-nos com as compas do vermelho que se traziam umha brincadeira tremenda com umha delas porque o mesmo dia da bomba tivo um vis com sua família que durou mais tempo do normal já que se esquecérom dela dentro do quarto dos vis. Aos mídia nom se lhes ocorre umha outra cousa que comentar ao respeito do petardo que as famílias das presas bascas, depois de vir comunicar com elas, aproveitárom para deixar um presentinho na área industrial de lado da prisom. Isso é economizar tempo e recursos e o demais som tontarias. Bem vemos que os “CSI” espanhóis tenhem umha lucidez e umha clarividência que som a enveja do resto dos estados europeus. Com gente e com investigaçons assim bem nos podemos sentir mais seguras, já que o razonamento é tam atinado que nem meu curmao de cinco anos estaria mais perspicaz. Podedes-vos imaginar o pitorreio com a companheira basca, que resulta que vai ter à família num comando desses itinerantes dos que há tantos por aí… Bom, já todo o mundo sabe como as gasta a mídia, mas acho que aqui levárom-se a palma. Obrigada, “jornalistas”, por manter a populaçom imbecilizada, assim temos mais de quem rir-nos. Quarta-feira, 5 de Outubro de 2005 Esta semana bule-bule de novo. Vai vir um inspector de Instituiçons Penitenciárias e andam de limpeza geral que nom nos deixam viver. As carcereiras e todo o pessoal, nervosíssimos. Que se saquem todo de acima das mesas se nom o tiramos, que se ponham as colchas talegueiras, retirem a roupa das janelas, adecentem as celas, limpem a cozinha, o pátio, as duches…. Todo, que barbaridade. Até elas sacárom a televisom e os sudokus da sua garita (que é o “escritório” onde estám todo o dia). Estám que nom vivem porque contam que há uns anos vinhera umha inspectora que ficou para toda a história de Instituiçons Penitenciárias com o alcume de “La del duro”, já que passava um peso de canto polas juntas dos azulejos para ver se havia merda. Isto nom é o normal, o que ocorre é que chega o inspector, passa meia hora olhando para os módulos, abrem-lhe algumha cela e volta para a casa como se tal cousa, mas a do peso deixou boa fama para as inspecçons do resto da vida neste talego. Já podia vir mais a miudo, a ver se limpam mais. Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005 Pensavades que rematava a dança? Pois nom. Depois da inspecçom ocorreu-se-lhe à Gallizo, directora de Instituiçons Penitenciárias, dar-se um “rule” pola prisom. Bom, pois a continuar com o estrês e as limpezas de arriba para abaixo. Isto nom remata mais. Polo menos as compas do vermelho figérom-lhe passar o apuro de viver umha concentraçom contra a dispersom d@s pres@s polític@s. Marchou botando fumo. Nós nom lhe figemos passar o mau rato, mas eu tropecei-me com ela rodeada de maromos e chefes de serviço. Tivem a sorte de ver como umha par de presas lhe comentavam que a prisom estava massificada e que tinhamos que entrar em duas turmas ao comedor (que tem cabimento para 50 pessoas e somos 120 no nosso módulo), pedindo-lhe um telefone mais e cousas como umha piscina. Ela toda cínica, por suposto, contestava de muito boas maneiras “Tomo nota”. Por suposto, o dia que viu ela figérom algumhas mudanças sobre a marcha, como abrir o polidesportivo pola tarde para que os módulos estivessem valeiros e nom se notasse a massificaçom. Aliás, que visse a quantidade de actividades das que dispomos as presas. Ponhem-me má essas lavadas de cara, mas já sabemos como funcionam estas cousas… Domingo, 9 de Outubro de 2005 A sexta levárom-se Marijo de conduçom a Soto. Que lástima, o certo é que é insuportável, recolher todo numha tarde e ao furgom policial depois dumha noite em Ingressos de Ávila e antes de vários dias de Ingressos em Soto até que te levam a módulo. Em Madrid V peleja para que nom te dobrem com umha presa social e muito provavelmente um plante (negar-te a entrar na cela) e vista a txopano (isolamento). Esse é o panorama que se te apresenta quando te dizem “recoja sus cosas que se va de conducción”. Para mais inri pensar em volver a Soto que é umha prisom aborrecível. A despedida foi bem bonita: todas as presas vitoreando-a e as marroquinas cantando-lhe e gritando-lhe cousas em árabe. A lástima foi que as bascas estavam de chapeio (protesto que consiste em negar-se a saír da cela) e nom se pudérom despedir a gosto. Até a volta, Marijo. Terça-feira, 11 de Outubro de 2005 O dito que reza “Há galeg@s em toda a parte” é bem certo, até nas prisons. Por umha banda em Soto havia boa récua delas: Aurora e Mónica do PCE(r) e o Grapo e aliás estavam a Josefa Charlim –que nom é um bom exemplo de galega- e umha outra moça de Vigo que devia estar por algum tema de drogas. Cá tenho a Iolanda, umha menina corunhesa que está sequestrada pola sua militáncia no PCE(r). É indescriptível a sorte que tenho de poder estar numha prisom espanhola e poder seguir falando com umha moça galega na minha língua e quase como se estiver na casa. Bom, no nosso caso é bastante singelo, já que a nossa língua é falada por milhons de pessoas no mundo, e mentres o Estado espanhol siga sendo assim de racista, as prisons espanholas estarám sempre cheias de brasileiras com as que poder falar em galego. Ficam surprendidíssimas de que umha pessoa com um sotaque tam espanholizado e, supostamente, “espanhola”, fale na sua língua. Sempre me dizem “Vocé fala muito bem o português”. Logo já lhes explico que som umha presa política e nom acreditam que no “Primeiro Mundo” e em pleno século XXI os espanhóis sigam a ter colónias e presas políticas nos seus cárceres. Mas há que estar cá para vivé-lo. Por suposto nom duvidam, umha vez que nos conhecem, que isto nom seja assim. Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005 A intervençom das comunicaçons é dessesperante: nom só nos gravam as chamadas e as visitas por loqutório (isso já ocorria fora), senom que também nos traduzem e lem as cartas, e isso nom é o pior, o mais terrível é que nom nos deixam enviar mais de duas à semana. Que agóbio que se acumulem, ter a gente aguardando tua resposta e nom poder fazer nada para avisar, “que nom é deixadez, é impossibilidade”. Ainda por cima, todo o que nos chega ou o que enviamos fica parado mínimo 15 dias no cárcere. Umha vez pasado esse prazo mandam-as a meio de fax à Direcçom Geral de Segurança de instituiçons Penitenciárias onde as traduzem e as lem. Se nom suponhem um “perigo” para a prisom, dam-lhes curso, se sim, ficam retidas. Muitas delas “perdem-nas” com o único objectivo de fazer dano, as mais bonitas ou as que mais ilusom nos podam fazer. Também há algumhas pessoas com as que te boicotam reiteradamente a correspondência; se vem que há alguém pouco conhecido, a quem lhe poda resultar impactante tua carta, nom lha fam chegar ou nom te dam a sua. Sobre todo com gente nova ou duvidosa na sua ideologia. Nom vam permitir que eu seja umha “má influência para ninguém”. Tede sempre presente que quando eu nom resposte a umha carta é porque foi boikotada, e é imprescindível ganhar-lhe esta batalha à prisom, repetide e seguide escrevendo, para que a nossa paciência seja maior do que a sua. Ou senom sempre nos ficará o método de certificá-las. Sábado, 15 de Outubro de 2005 Ando ultimamente a enredar com o árabe. Pedim a umha companheira marroquina que me ensinasse. O certo é que sempre me interessou a ideia, mas nunca tivem umha oportunidade como esta e há que aproveitar mentres podamos. Aí vos vai um VIVA GALIZA LIVRE escrito em alfabeto árabe. Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005 As variáveis espaço-tempo que constituem o nosso marco de referência, ou seja o continente da nossa essência vital, som com as que joga principalmente a prisom. O espaço polo evidente de nom ter liberdade para saír de aqui. O que já nom é tam fácil de entender é a questom temporal. A sensaçom que tes de que dentro da prisom tes muito tempo livre desaparece em quanto entras, e eu nom o entendia quando recém chegada as companheiras me comentavam que nom me metesse em muitos enredos que depois me ia agobiar. Mas já sei a que se refirem. O tempo de que dispomos livremente aqui dentro é muito menos do que o de fora, e olhade que eu fora, entre responsabilidades políticas, militáncia em geral e os estudos, nom dispunha de demasiado tempo, mas a diferença reside em que ao serem eu quem o organizava era capaz de aproveitá-lo ao meu parecer. Cá é o cárcere quem te organiza as horas, quando almoças, quando comes e ceias, quando durmes, quando vas à biblioteca, as horas de fazer desportos, as horas para ler, etc. Total que tes possibilidade de dispor de quatro horas ao dia e dá graças. Isso nesta prisom que temos espaço para estar tranqüilas, em Soto podo dizer que nom dispunhamos de mais de umha hora e meia, que era o tempo que nos deixavam ficar na cela depois do jantar. Nom tinhamos nem um espaço para fazer desportos (bom, mais bem sim o havia, o que se passa é que nós nom tinhamos acesso a ele), por nom falar da biblioteca, que estava proibidíssimo pisá-la embora reuníssemos todos os requisitos para poder ir a ela, como estar matriculadas na UNED. Esse era um privilégio de que só dispunham as presas sociais. Cá podemos fazer o que fam o resto, nom tenhem essa animadversom por nós que se respirava em Madrid V. Bom, mas cada cárcere é um mundo à parte e a autonomia que tenhem fai com que estar num ou em outro convirta a tua qualidade de vida numha diferença de 100%. Menos mal que me levárom de Soto. Quarta-feira, 19 de Outubro de 2005 É curioso o estar cá com a Iolanda. Às vezes surpreendo-me ao ver-me falando com umha pessoa que há uns meses era umha perfeita desconhecida, de gente comum da que sabemos as duas, de lugares, de datas, de mobilizaçons que compartilhamos as duas estando fora e que comentamos agora num lugar completamente estranho e no que nunca pensei me fosse atopar umha galega que, para além de sé-lo, começou de muito novinha a sua andaina política no independentismo corunhês. Muitas vezes ao falar com ela dá-me a sensaçom de estar na Galiza, tomando-me um café tranquilinha com umha colega qualquer, na minha casa ou na sua, mas fai-me sentir um ambiente muito familiar. É evidente que no caso das bascas é sempre assim, porque ao serem tantas quase sempre coincidem mais de umha na mesma prisom, mas o resto temos polo normal vivências diferentes, inclusivamente dentro dos mesmos colectivos, como ocorre com o do GRAPO-PCE(r), que som muitas as pessoas presas, mas situadas num território muito amplo que é todo o Estado espanhol, entom as suas vivências som bem diferentes e as suas procedências também. Podo dizer que é umha sorte para mim ter aqui à Iolanda. É lástima que o Ugio nom viva o mesmo. Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005 Hoje levárom-se as três bascas de conduçom a Soto por questons diferentes, já que Amaia marcha para Euskal Herria de testemunha a um juízo e as outras duas vam a algo da Audiência Nazi. O certo é que se nota muito, já que apenas ficamos cá quatro pessoas. Mas é bom afazer-se a esta situaçom porque umha vez que é o juízo e tes que cumprir condenaçom (ou seja, já nom estás preventiva), normalmente te levam a umha outra prisom onde com segurança se nom ficas só, quase, e metem-te num primeiro grau, com o qual apenas tes espaços comuns com os que compartilhar vivências com as companheiras (se as há), um regime carcerário muito mais estrito e com muitos menos direitos. Finalmente vai ser umha bençom estar quatro anos preventiva, já que como estes anos também contam, som quatro anos num regime bastante bom que te sacas do primeiro grau. Domingo, 23 de Outubro de 2005 Há já três meses da minha detençom, boto a vista atrás e dá-me a sensaçom de levar cá toda a vida. As presas temos umha dupla sensaçom de tempo; por umha banda, que se passa muito rapidamente e, por outra, que antes disto nom havia nada. A leitura que fago é que por umha parte nos adaptamos muito facilmente a este novo “ecossistema” e por outra que aqui nm existe o tempo como variável. Esta é umha paréntese na nossa vida, e quando a retomemos, seguiremos com a mesma idade com a que entramos.
 
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