26 da Abril de 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Entre os presos a relaçom é cordial, mas nom há irmandade. Diz-se que noutro tempo era doutra maneira, que se compartilhavam as causas e se defendiam uns aos outros. Pode que seja saudade dos tempos idos, ou pode ser que os ventos soplam para o individualismo em toda parte. Nom sei antes, mas agora se os carcereiros saíssem um dia se pugessem a maltratar um preso, ninguém sairia na sua defesa. Falo dos presos sociais, naturalmente. De todas as maneiras a relaçom é cordial e isso agradece-se, cria um ambiente relaxado onde se pode estar à vontade, longe da ideia habitual de tantos filmes: nom se vive com tensom, nom se respira violência e medo. O que mais chama a atençom é a mistura de raças e religions, que nom formam grupos compactos e muito menos bandas, ao revés, se olhas para o pátio vés aqui, um árabe, um brasileiro, um espanhol e um gitano a jogar o parchis, mais lá um preto a passear com um romeno e dando voltas em círculo, um basco corre parelho a um lituano. Depois a malta agrega-se por identidades, mas só para ocupar umha mesa ou um canto do módulo, para terem, por assim dizer, umha base. E está o canto dos mussulmanos, o dos bascos, o dos canários e o dos gitanos, cada um com a sua zona de pátio, as suas mesas e as cadeiras com umha marca para reconhecé-las. Cada um tem a sua base, mas nom passa muito tempo nela. Entre os grupos que encontras rindo, compartindo umhas cervejas sem álcool ou jogando a cartas, xadrez, parchis ou dominó, o mais normal é distinguir várias nacionalidades. Inclusive quando há brigas, tam comuns, é sempre assunto individual, nom racial. Polo mesmo motivo, nom existem os “chefes” ou, como se lhes chamava quando sim havia, “kies”. Parece mentira até donde chega esta cordialidade, estes bons modos dos presos. Por exemplo, cá neste módulo há vários islamitas de Marrocos, Síria, Paquistám e amazigs. Alguns estám condenados ou acusados por participar no 11 de Setembro, outros por enviar ajuda a um grupo curdo de resistência iraquiana, … Neste mesmo módulo há um inglês jovenzinho que conta com sair logo do cárcere, e pretende alistar-se no exército británico para ir voluntário ao Afeganistám, porque afirma que do que ele goste é de guerra. Pronto, pois este inglês, que é um gajo simpatiquíssimo e de trato amável, leva-se estupendamente com os islamitas e cada dia joga xadrez com o paquistanês. Nom é impossível que de aqui a dez anos se encontrem em Tora Bora e tentem desmembrar-se mutuamente, mas de momento estam presos em Puerto I e portam-se como bons companheiros. Eu conhecim um ex-militar británico que figera trabalhos nom mui claros em Irlanda do Norte, e passei bons momentos brincando com ele. Sei duns bascos que nom se levavam mal com um fascista italiano e com um picoleto arrestado por atracar bancos. Nom proponho todo isto como modelo de nada, olho. A prisom tem umhas regras e vale a pena segui-las se um quer poupar problemas desnecessários. Esta cortesia é um pouco chocante para todos, suponho que para quem nom se faz umha ideia de como se convive nos cárceres deve ser mais contraditória ainda, e a verdade é que nem sequera me proponho defendê-la ou justificá-la. Mas neste blogue às vezes descrevo como se vive cá dentro, e nom quero passar por alto as contradiçons. E as relaçons com os carcereiros? Nas prisons de segundo grau, especialmente nos módulos de preventivos, a hipocrisia também trabalha e mantem-se certo colegueio superficial e abertamente servil, chama-se-lhes de “Dom” e rim-se as suas graças. Isto claro, os presos sociais. O tratamento é sempre de você, em geral nos dous sentidos. De todas as maneiras o contacto é escasso, cada bando tem os seus espaços e só coincidem em momentos concretos. Cá em Puerto, como somos presos conflitivos, nom há colegueio que valha. Se nos encontramos num corredor, ora nos ignoramos atravesando-nos com a olhada como se fôssemos invissíveis, ora cruzamos umha fria olhada de ódio

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