7 de Junho de 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Sabado, Junho de 2008. A noite caiu há umha hora, os presos levamos fechados nas celas desde as oito da tarde. Se aparto a vista da mesa… “O urbanismo é a realizaçom moderna da tarefa ininterrompida que salvaguarda o poder de classe: o mantenemento da atomizaçom d@s trabalhadoras que as condiçons urbanas de producçom tinham reagrupado perigosamente. A luita constante que deveu …” … os meus olhos dam no pátio, umha escuridade atravessada por focos amarelos coma rodeada polos quatro lados polas paredes das celas com a que abrem as suas janelas ao espaço comum como a um pátio interior. Em cada cela um só preso, e distingo … “… soster-se contra todos os aspectos desta possibilidade de se reunirem encontra no urbanismo o seu campo privilegiado. O esforço de todos os poderes estabelecidos desde a Revoluçom Francesa para acrescentar os meios de manter a ordem na rua culminará enfim na supressom da rua. ‘Com os meios de comunicaçom de massas que eliminam as grandes distáncias o isolamento da populaçom demonstrou ser um modo de controlo muito mais eficaz’, constata Lewis Munford, em A cidade através da história. Mas o movimento geral do isolamento que é …”. … na galeria de enfrente as actividades a que se dedica cada um: os bascos, como eu tenhem o flexo acceso e inclinam-se sobre as mesas, dous ou três comuns dormem já, o resto deixam ver o resplandor intermitente dos televisores. De tanto em tanto dous ou três presos conversam de janela a janela. Estam ponhendo Titanic na Segunda, diz um. Na segunda, pergunta o outro. Na segunda de Andaluzia. Um terceiro intervém pedindo um cabo … “… o urbanismo deve também conter umha reintegraçom controlada dos trabalhadores e trabahadoras segundo as necessidades planificáveis da produçom e o consumo. A integraçom no sistema deve recuperar os indivíduos entanto que indivíduos isolados em conjunto: tanto as fábricas …”. … de antena para o seu televisor, alguém que tem um a mais fai-lho chegar passando-o de mao em mao, janela a janela. Dam as onze da noite, os macacos apagam-nos as luzes das celas e as conversas de pátio esmorecem. Ergo-me, debruço-me á janela: como ficou silencioso o módulo a estas horas. Escuitam-se só levemente algúns televisores com o volume mais alto e, de vez em quando, o ruido do walki-talki do sentinela na garita. Com tanto sossego e tanta escuridade, se nom fosse polos … “… quanto as casas de cultura, as vilas de veraneio quanto as “grandes urbanizaçons”, estám especialmente organizados para os fins desta pseudo-colectividade que acompanha também o individuo isolado na célula familiar: o emprego generalizado de receptores da mensagem espectacular faz com que o seu isolamento se encontre povoado de imagens dominantes, imagens que somente por este isolamento adquirem o seu pleno poder”. … focos que nos apontam para nos delatar se tentamos evadir-nos, descobririamos que nos cobre um céu empedrado de estrelas. Mas no cárcere nunca se vem as estrelas, nom sabiades isso? Só com esforço se consegue localizar Vénus, se tanto ou algum outro astro especialmente luminoso. Parece-vos que estou construindo umha metáfora carcerária para a vida em geral? Nom sei, vós veredes a que vos soa todo isto. Eu afianço-vos que a descriçom é realista, e se encaixa com os raciocínios intercalados daquele francês, pois … pior para tod@s. Ora, há que lembrar-se bem da sua advertência, que é também umha professom de fé na espécie humana “imagens que somente por este isolamento adquirem o seu pleno poder”. Amanhá será outro dia. Quiça com algo de imaginaçom, localice a estrela polar.

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