Arquivo do mês de Abril, 2008

29 de Abril de 2008

Terça-feira, 29 de Abril, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

As brigas som as segundas, mas também podem cair em domingo. Isto é assim porque os cartons de débito com que se fam as compras carregam-se as terças, de maneira que domingo e segunda a malta está sem um peso, sem tabaco e sem hipótese de comprar drogas. O ambiente vai-se electrificando até que condensa num ou dous enfrentamentos, e depois sossega até a terça, em que nom costuma haver liortas. Em Puerto I as cousas funcionam doutra maneira do que nas prisons anteriores em que estivem, porque isto é primeiro grau e o tipo de presos que se encontra é diferente. Para que che apliquem primeiro grau tes que ter-te metido nalgum lio gordo antes, e mais ou menos a distribuiçom é equitativa entre os que brigárom com outro preso e os que brigárom com um carcereiro. Há bastantes neste último grupo, curiosamente. Do primeiro grupo há que dizer que umha simples liorta entre dous presos nom conduz ao primeiro grau: é preciso que seja mesmo grave, com uso de pinchos e risco de morte. Entom, o grosso dos meus companheiros de pátio estám aqui por terem surrado duramente alguém, preso ou carcereiro. O resto som políticos, que caem aqui porque sim, como lhe passa à Giana, ou fuguistas, que também há alguns. Portanto, os enfrentamentos neste pátio som diferentes aos de Cáceres, por exemplo: som mais comuns e mais violentos. (more…)

26 da Abril de 2008

Sábado, 26 de Abril, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Entre os presos a relaçom é cordial, mas nom há irmandade. Diz-se que noutro tempo era doutra maneira, que se compartilhavam as causas e se defendiam uns aos outros. Pode que seja saudade dos tempos idos, ou pode ser que os ventos soplam para o individualismo em toda parte. Nom sei antes, mas agora se os carcereiros saíssem um dia se pugessem a maltratar um preso, ninguém sairia na sua defesa. Falo dos presos sociais, naturalmente. De todas as maneiras a relaçom é cordial e isso agradece-se, cria um ambiente relaxado onde se pode estar à vontade, longe da ideia habitual de tantos filmes: nom se vive com tensom, nom se respira violência e medo. O que mais chama a atençom é a mistura de raças e religions, que nom formam grupos compactos e muito menos bandas, ao revés, se olhas para o pátio vés aqui, um árabe, um brasileiro, um espanhol e um gitano a jogar o parchis, mais lá um preto a passear com um romeno e dando voltas em círculo, um basco corre parelho a um lituano. Depois a malta agrega-se por identidades, mas só para ocupar umha mesa ou um canto do módulo, para terem, por assim dizer, umha base. E está o canto dos mussulmanos, o dos bascos, o dos canários e o dos gitanos, cada um com a sua zona de pátio, as suas mesas e as cadeiras com umha marca para reconhecé-las. Cada um tem a sua base, mas nom passa muito tempo nela. Entre os grupos que encontras rindo, compartindo umhas cervejas sem álcool ou jogando a cartas, xadrez, parchis ou dominó, o mais normal é distinguir várias nacionalidades. Inclusive quando há brigas, tam comuns, é sempre assunto individual, nom racial. Polo mesmo motivo, nom existem os “chefes” ou, como se lhes chamava quando sim havia, “kies”. (more…)

19 de Abril de 2008

Sábado, 19 de Abril, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Contra o que parecem crer os nossos inimigos e também @s amig@s que nom compreendem movimentos como o nosso, o nacionalismo nom se propom restituir nengum paraiso perdido séculos atrás. Nom conheço nengum/ha galega que aspire a impor os foros, por exemplo, ou o poder feudal da igreja, ou as levas militares. Mas o mundo anterior ao capitalismo ficou sumido nas tebras pola ideologia oficial deste, como se todo fosse barbárie e obscuridade, mentres a modernidade polo contrário, tem que ser encomiada como a época das luzes, da liberdade e do benestar. Pois, bem, da mesma maneira que o presente merece críticos mais severos, o nosso passado deve ser julgado com mais justiça. Só assim, a contra -luz, se distingue o sensentido da vida que levamos e a possibilidade doutros mundos. Como digo, é um exercício de contraste, nom umha proposta de restauraçom do feudalismo. Agora, dirá-se, vivemos com mais comodidade. Talvez, mas há que explicar qual ideia de confort anima a sensaçom de que estar apinhad@s em pisos minúsculos dentro de blocos de prédios horríveis, passar horas encerrad@s em cápsulas motorizadas ruidossísimas e trabalhar em ambientes perigosos e aborrecidos, etc., é preferível a viver numha aldeia seguindo as lavouras conforme as estaçons. Objectará-se que vivemos mais tempo e com melhor saúde. (more…)