Arquivo do mês de Setembro, 2006

17 de Setembro de 2006, Domingo

Domingo, 17 de Setembro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

(…) Deixar de fumar custou-me menos que aprender a negar um cigarro. Existe um acordo quase sagrado dos fumadores cuja violaçom sempre me pareceu que arruinava umha das poucas solidariedades efectivas que duram: a que te permite pedir tabaco a um desconhecido sem passar por esmolante. Nom te parece reconfortante, nom já como fumadora, mas como comunista? Desconheço se é culpa do sistema penitenciário, dos carcereiros ou dos presos comuns, mas no xadrez privam-nos até disso, até da possibilidade de continuar sendo boas pessoas. Os primeiros meses livrei umha batalha interior entre o sentido comum, que me alertava contra qualquer generosidade com presos comuns, e o velho código, a velha forma de ser. É verdade que busquei um ponto de equilíbrio, e é verdade que fracassei miseravelmete. Umha companheira diz que na prisom conheces-te mais a ti mesmo, as tuas pulsons e os teus limites. Hoje sinto-me mais inclinado a crer que nom te conheces tanto quanto te transformas, e isto último em muito alto grau e nom necessariamente no melhor dos sentidos. Até acabarmos chalados ou convertidos em animais talegueiros resta-nos porém um longo caminho empedrado por toda a série das cousas boas que este contexto provê. Para o além, que fica distante, haveremos de seguir o conselho do Renato Curcio e viver o cárcere “dumha maneira rocosa”, com a dureza e impassibilidade dos minerais. O humano; a se resistir, será o que vai bem envolto, protegido no âmago. (…)

10 de Setembro de 2006, Domingo

Domingo, 10 de Setembro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Desde fora tende-se a pensar que no xadrez sobra o tempo, e um imagina-se aproveitando para estudar carreiras, escrever muito, ler bibliotecas inteiras e até elaborar artesanias, mas depois resulta que se chega aqui e começam a arrojar-te dum lado ao outro todo o santo dia, de maneira que a tua ocupaçom principal consiste em obedecer. Entra na cela, e tu entras. Sai da cela, e tu sais. Ao pátio, ao comedor, passe pola guarita, forme para reconto. Levo quase cinco meses nesta prisom e nom tive nenhum problema sério com a direcçom, o qual me permitiu atingir um certo nível de estabilidade e organizaçom com o que emprego melhor o tempo e descontraio um pouco da tensom de Navalcarnero, o isolamento, os partes, os plantes e demais. Está bem. A contrapartida é que nom há nem um gesto rotundo de desobediência em todo este tempo, e isso é sao nem muito gratificante. Ah! Nas situaçons de dominaçom a resistência nem apenas enobrece o espírito: ademais proporciona a mais limpa e intensa das satisfaçons! Acordo-me quando começávamos a pintar murais em valados abandonados de Santiago. (more…)

3 de Setembro de 2006, Domingo

Domingo, 3 de Setembro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Um amigo comenta do seu trabalho num Centro Social: “Eu dizia de fazer actividades praticamente diárias, mas via-se como um queime. E em que queima a gente o seu tempo?” Isso é: em que queima a gente o seu tempo? Certo que em muitas ocasions o activismo acaba sentindo-se como umha carga pesada e estressante, mas o que nom se leva em conta é que também a falta de activismo é queimante, e em maior medida. A questom é decidir em que queremos queimar o nosso tempo; se em vegetar perante o tevê, em escalar na sociedade e na empresa, em acumular objectos, ou em viver. Num pais como o nosso em que a existência toda está concebida como um ciclo de consumo e concorrência, como umha continuidade de actos de compra-venda, como um despojamento permanente dos vínculos sociais e territoriais, num pais assim, é dizer, o activismo nacionalista torna-se sinónimo de vida. Mais cansativa que o sofá, mais exigente que a vadiagem que nos propom o mercado, até mais dolorosa, mais imprevisível e mais ingrata que a morte dosificada por Espanha e o Estado. Mais satisfatória também, e isso sabe-o toda a gente: entre os que escolhem “nom implicar-se nom há nem a metade de risos, de alegrias e de orgulhos, essa é a verdade. Mesmo quando a reapropriaçom do espaço, do tempo e do destino acaba com um no cárcere, o dia-a-dia continua grávido de sentido, de intensidade e de vida, enquanto na rua milhares de pessoas languidecem no tédio esquizofrénico da subsistência burguesa. Isto traz-me a memória umha passagem dumha carta de Séneca: “Outorga-me simplesmente, cada vez que te rodeiem para persuadir-te de que és desgraçado, o nom fazer caso do que ouves, mas de como te encontras, o consultar com a tua resistência ao sofrimento, o perguntar-te a ti mesmo, que te conheces melhor que ninguém: Por que me tem de comparecer essa gente? O que é que os faz tremer, o que faz que tremam até o meu contacto, como se a tribulaçom pudesse contagiar-se?”