17 de Setembro de 2006, Domingo
Domingo, 17 de Setembro, 2006
(…) Deixar de fumar custou-me menos que aprender a negar um cigarro. Existe um acordo quase sagrado dos fumadores cuja violaçom sempre me pareceu que arruinava umha das poucas solidariedades efectivas que duram: a que te permite pedir tabaco a um desconhecido sem passar por esmolante. Nom te parece reconfortante, nom já como fumadora, mas como comunista? Desconheço se é culpa do sistema penitenciário, dos carcereiros ou dos presos comuns, mas no xadrez privam-nos até disso, até da possibilidade de continuar sendo boas pessoas. Os primeiros meses livrei umha batalha interior entre o sentido comum, que me alertava contra qualquer generosidade com presos comuns, e o velho código, a velha forma de ser. É verdade que busquei um ponto de equilíbrio, e é verdade que fracassei miseravelmete. Umha companheira diz que na prisom conheces-te mais a ti mesmo, as tuas pulsons e os teus limites. Hoje sinto-me mais inclinado a crer que nom te conheces tanto quanto te transformas, e isto último em muito alto grau e nom necessariamente no melhor dos sentidos. Até acabarmos chalados ou convertidos em animais talegueiros resta-nos porém um longo caminho empedrado por toda a série das cousas boas que este contexto provê. Para o além, que fica distante, haveremos de seguir o conselho do Renato Curcio e viver o cárcere “dumha maneira rocosa”, com a dureza e impassibilidade dos minerais. O humano; a se resistir, será o que vai bem envolto, protegido no âmago. (…)
