Arquivo do mês de Julho, 2006

30 de Julho de 2006, Domingo

Domingo, 30 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Ficou dito que nom há nem que tentar entender as motivaçons do sistema penitenciário, portanto eis um facto estranho ao que renuncio a buscar razons: nestes momentos sou o único preso do módulo 1 do C.P. Cáceres II que pode receber visitas de amigos, e nom só da família directa. Isto já o comentei outro dia, acho. Um facto mais estranho ainda: sou o único preso de todo este cárcere que pode telefonar amigos, algo que consegui finalmente a semana passada e que nom pode fazer mais ninguém, nem sequer os bascos, que sim têm visitas de amizades. E todo sem um só protesto, sem um só recurso ao juiz. Umha simples reuniom com o SS, e arranjado. Nom é como para dizer obrigado, claro, porque som direitos reconhecidos em todas as prisons menos nesta, assim que nom procede falar de privilégios nem nada parecido. Mas…porquê?

25 de Julho de 2006, Terça-feira

Terça-feira, 25 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Serám os políticos que hoje sobem às palestras os representantes, os condutores dum pais que por algum motivo se deixou representar e conduzir? Será a parafernália publicista dos slogans, os cartazes de design, a partilha do povo qual partilha do mercado da telefonia móvel, será isso a “política” que queriam os gregos, ou a queremos nós? Hoje que todas as forças políticas, incluídas as nacionalistas, e independentistas, se vestem de gala e se incham para parecer mais populosas e mais perfeitas às câmaras dos jornalistas e à vista dos manifestantes, será que assistimos a um episódio de intervençom política real, a um lance da luita de libertaçom nacional? Nom será que levamos inoculado o vírus da sociedade do espectáculo em nós mesmos, e que sem darmos por isso reproduzimos os jogos de sombras em que proliferam os políticos profissionais, mas que murcham a vitalidade dos povos que se alçam? Nom será que, além dos cômputos falsificados, as comparaçons de tamanhos e a verborreia sobre confluências, divergências e ignorâncias entre organizaçons, o decisivo desta jornada constitui-no o rio sarcástico dos galegos visceralmente irrepresentáveis e hostis a qualquer pilotagem teledirigida, que furam nos estratos duros da sociedade colonizada por Espanha e o capital, que com a paciência e incontenibilidade dumha corrente subterrânea abrem caminhos para a vida desalienada contra todas as lousas pesadíssimas da “política séria”, a “alta cultura”, o “deixa que já se ocupa o sindicato”, ou a delegaçom em partidos e administraçons? Nom será o rumor deste torrente invisível o que nos faz pressentir que algo há que se está preparando, e nom serám os seus afluentes que se estendem desde todas as manifestaçons e confluem já na enxurrada geral os que dam cor e vida a todo aquilo que hoje nom faz parte do festival de farsas e tragicomédias a que nos vínhamos afazendo? Será que umha parte deste velho povo começa a reconstruir-se a si mesmo, e simultaneamente a defender essa reconstruçom ante os que se dedicam, por ofício ou por estupidez, ao ignóbil labor das demoliçons?

24 de Julho de 2006, Segunda-feira

Segunda-feira, 24 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

A tal hora deveu começar já a rondalha da AMI pola zona velha santiaguesa, no que vem sendo a duodécima ediçom da “noite da mocidade com a bandeira”. Nom se me ocorre nada que dizer, excepto que lamento nom participar, que já é o segundo ano que falto e vai tu saber os que demorarei ainda; nom se me ocorre nada, mas nom me preocupa porque daqui a um par de horas falaremos de todas maneiras, Giana e eu, interviremos no concerto com umha mesagem de voz a que nos convidou a Assembleia. Hoje nom escrevo mais; por um dia substituiremos a palavra escrita pola falada e uniremos o nosso aos vossos berros neste Dia da Pátria.

23 de Julho de 2006, Domingo

Domingo, 23 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

(…) Levamos um ano presos! Como passárom vazios estes doze meses, nom achas? Comparo-o com os doze precedentes e nom consigo acreditar que tenham o mesmo tamanho. Como pode ser que durasse o mesmo um período como este, aborrecido e lânguido, que o anterior tam carregado de acontecimentos e decisons? Será assim, desde agora? Há pouco cumprimos dez anos de militância, os santiagueses. Essa década para mim é imensa, inabarcável, acontecêrom tantas cousas, tantos processos e experiências que quando tento encaixá-los numha cronologia saem-me vinte e cinco anos. Agora imagino dez anos como este último, no xadrez, dez anos de extensom similar à década anterior, e parece-me impossível enchê-los com umha quantidade minimamente aproximada de vida. A substância do tempo é bem estranha. (…)

22 de Julho de 2006, Sábado

Sábado, 22 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Nom me lembro de quem foi que notou que, à hora de analisar umha sociedade determinada, nom é tam necessário estudar quem manda, e com que meios e para que fins, como tentar compreender quem obedece, e porquê. Eis um dos dous grandes mistérios do nosso pais: porquê tanta gente obedece o poder. Nom menos enigmático é o segundo mistério: como é que numha situaçom assim continua havendo gente que desobedece? Como nom som capazes de apagar de vez a rebeliom?

20 de Julho de 2006, Quinta-feira

Quinta-feira, 20 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Parece ser que numha cidade como Vigo há oito mil carros por quilómetro quadrado, o que explica que tropecem uns com outros ocasionando quatro mil acidentes anuais. Devemos ser todos um pouco malucos para aceitar um jogo como este. Claro que a cousa nom é tam fácil, porque o modelo de transportes é umha decisom colectiva, principalmente estatal, que nos condiciona até o ponto de atrapar-nos entre o sentido comum e a necessidade do carro. Se nom há alternativas de meios de locomoçom públicos, se supom mais perigo ser peom que condutor, se até a paisagem se rende e modula em oras do carro privado, como opor-nos a ele? Haver há mercadorias maneiras, mas o essencial é mudar o modelo, nom ignorá-lo. Expulsar os carros das cidades, paralisar as grandes infraestuturas viárias, penalizar o uso do carro e, principalmente, abrir alternativas de mobilidade colectivas e limpas que as há e som mais baratas que os milhares de milhons que custa sustentar esta loucura. Porque a ideia essa do “uso responsável do carro”, mire-se por onde se mire, é umha contradiçom em si mesma.

18 de Julho de 2006, Terça-feira

Terça-feira, 18 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Como nós adoramos o automóvel! Condiçom e rito da maturidade, nele projectamos o nosso ego e por meio dele entramos no mundo da concorrência, as pressas e o fetichismo da sociedade de mercado. No seu altar sacrificamo-lo todo, rachamos o nosso território, poluímos o ambiente, endividamo-nos, deixamos a vida. Primeira causa de morte entre a juventude, resulta difícil achar umha única vantagem para um modelo de transporte tam louco como o baseado no carro particular, nom sendo as vantagens para os beneficiários de todo o invento: multinacionais do automóvel, construtoras de estradas e rodovias, petroleiras. Pensando com atençom, a imensa maioria das grandes empresas depende do sistema automobilístico. Com todas as estupideces que enriquecem gente muito poderosa, também o carro tem os seus defensores intelectuais. Achei por acaso duas louvanças extraordinárias que exemplificam o tipo de mundo que nos querem vender. A primeira, dum tal Adolfo Campos, polos vistos experto no sector de seguros na Galiza (nom sei se assalariado do mesmo). (more…)

16 de Julho de 2006, Domingo

Domingo, 16 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

“O riso distrai, por alguns instantes, ao aldeao do medo. Mas a lei impom-se através do medo, cujo verdadeiro nome é temor de Deus. E deste livro poderia saltar a centelha luciferina que prenderia um novo incêndio em todo o mundo; e o riso seria a nova arte, ignorada incluso por Prometeu, capaz de aniquilar o medo. Ao aldeao que ri, enquanto ri, nom lhe importa morrer, mas depois, concluída a sua licença, a liturgia volta a impor-lhe, segundo o desígnio divino, o medo à morte. E deste livro poderia surgir a nova e destrutiva aspiraçom a destruir a morte através da emancipaçom do medo. E o que seríamos nós, criaturas pecadoras, sem o medo, talvez o mais propício e afectuoso dos dons divinos?” (Palavras do sinistro padre Jorge, em “O nome da rosa” de Umberto Eco).

14 de Julho de 2006, Sexta-feira

Sexta-feira, 14 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Contam-me que a Associaçom Cultural A Esmorga de Ourense vai reabrir o seu centro social. A Câmara Municipal, que o fechara com um pretexto peregrino, depois de umha intensa e hilariante campanha de protesto, muito na linha daquele “Riso selvagem” que propunha Luther Blisset. Às vezes também nos toca ganhar a nós, nom é?

10 de Julho de 2006, Segunda-feira

Segunda-feira, 10 de Julho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Há justo vinte e cinco anos, é dizer, ontem, conhecia-se o pedido da acusaçom para os inculpados por pertença à Luita Armada Revolucionária (LAR). Ao todo 182 anos a partilhar entre os catorze acusados. Botando contas, quantos anos levará Galiza com prisioneiros políticos? A Gana e a mim encerrárom-nos quando ainda há presos do EGPGC, que começou a ter gente nos cárceres quando? Em 1986? Pouco depois de saírem à rua os de LAR, com certeza. Desde a Restauraçom dos Bourbons, ou desde o Estatuto de Autonomia… quantos meses viveu o nosso pais sem prisioneiros políticos nos cárceres espanhóis?