
Ugio Caamanho
Serám os políticos que hoje sobem às palestras os representantes, os condutores dum pais que por algum motivo se deixou representar e conduzir? Será a parafernália publicista dos slogans, os cartazes de design, a partilha do povo qual partilha do mercado da telefonia móvel, será isso a “política” que queriam os gregos, ou a queremos nós? Hoje que todas as forças políticas, incluídas as nacionalistas, e independentistas, se vestem de gala e se incham para parecer mais populosas e mais perfeitas às câmaras dos jornalistas e à vista dos manifestantes, será que assistimos a um episódio de intervençom política real, a um lance da luita de libertaçom nacional? Nom será que levamos inoculado o vírus da sociedade do espectáculo em nós mesmos, e que sem darmos por isso reproduzimos os jogos de sombras em que proliferam os políticos profissionais, mas que murcham a vitalidade dos povos que se alçam? Nom será que, além dos cômputos falsificados, as comparaçons de tamanhos e a verborreia sobre confluências, divergências e ignorâncias entre organizaçons, o decisivo desta jornada constitui-no o rio sarcástico dos galegos visceralmente irrepresentáveis e hostis a qualquer pilotagem teledirigida, que furam nos estratos duros da sociedade colonizada por Espanha e o capital, que com a paciência e incontenibilidade dumha corrente subterrânea abrem caminhos para a vida desalienada contra todas as lousas pesadíssimas da “política séria”, a “alta cultura”, o “deixa que já se ocupa o sindicato”, ou a delegaçom em partidos e administraçons? Nom será o rumor deste torrente invisível o que nos faz pressentir que algo há que se está preparando, e nom serám os seus afluentes que se estendem desde todas as manifestaçons e confluem já na enxurrada geral os que dam cor e vida a todo aquilo que hoje nom faz parte do festival de farsas e tragicomédias a que nos vínhamos afazendo? Será que umha parte deste velho povo começa a reconstruir-se a si mesmo, e simultaneamente a defender essa reconstruçom ante os que se dedicam, por ofício ou por estupidez, ao ignóbil labor das demoliçons?