Arquivo do mês de Junho, 2006

28 de Junho de 2006, Quarta feira

Quarta-feira, 28 de Junho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Há um garoto asturiano que chegou aqui algo enganchado à heroína. Inteligente e com bastante sentidinho, consoante entra e se entrevista com o psicólogo faz saber que com efeito na rua se drogava, mas tem intençom de desintoxicar-se e nom vai querer, portanto, a dose diária de metadona que os médicos lhe ofertam. Como que nom, pregunta-lhe assombrado o psicólogo, porque quero desintoxicar-me. O asturiano, cujo problema com a heroína era recente e nom tam intenso como com a maioria dos que andam por aqui, começou a por-se nervoso e cada vez mais turbado, surpreendido pola reacçom inesperada do psicólogo. Quero desintoxicar-me, repete, ante o que o outro responde, rivalizando em assombro com ele, e isso por quê? Que resposta há a essa pergunta, quando a formula nom o teu camelho mas um médico? O asturiano ergueu-se em silêncio e foi-se embora da sala, entre apelaçons do médico, pensa-o melhor, ao menos prova-o uns dias, ao menos umha dose pequena… (more…)

25 de Junho de 2006, Domingo

Domingo, 25 de Junho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Nom se nos teria ocorrido nunca a hipótese de que La Voz de Galicia empreendesse umha campanha contra FENOSA, mas de facto assim é. Depois de décadas de apoio incondicional a todas as desfeitas perpetradas por essa empresa contra a gente e a terra, agora o diário corunhês pareceu assumir por ciência infusa os argumentos que os nacionalistas levamos reiterando desde os anos sessenta: o espólio energético, as agressons ambientais, o pagamento de impostos em Madrid… como é possível que tardassem mais de quarenta anos em dar por isso? Ou aconteceu qualquer cousa nos últimos meses para mudar de opiniom? Pois é, aconteceu algo, e é que os colegas de Caixa Galicia, José Luis Méndez e companhia, fôrom arrinconados no conselho de administraçom por ACS, construtora de Florentino Pérez. Como íntimos aliados que som, o jornal lançou-se à jugular da eléctrica, dissimulando os motivos tam pedestres (brigas por este ou aquele assento no Conselho) polos mais estimulantes postos em jogo há tempo por nós. Esta gente nem sequer repara em se diz verdades ou mentiras. Tanto lhes tem um argumento ou outro, umha palavra-de-ordem ou outra. Com eles é todo umha farsa, um espectáculo onde às vezes mesmo empregam as nossas palavras como cascas vazias. Amanhám Caixa Galicia é capaz de apoderar-se de FENOSA, continuar a mesma política energética, ambiental e fiscal, e La Voz voltará às louvanças desse ‘motor de progresso’.

21 de Junho de 2006, Terça-feira

Quarta-feira, 21 de Junho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Acabo de saber que a responsável por tudo isto, a chefa de Instituçons Penitenciárias, Mercedes Gallizo, foi militante do Movimento Comunista de España (MCE), organizaçom proveniente, já agora, dumha cisom de ETA, e membro dos Comitês de Apoio da COPEL, de que já tenho falado. Quanta gente militou no MCE, e como dizia o outro, “que poucos liberados do jazz”. Que mal acabárom os daquela escola.

18 de Junho de 2006, Domingo

Domingo, 18 de Junho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

(…) Já agora, esta gente merecia umha medalha. Os que nos visitam, digo, porque fixa-te por exemplo no que me veu ver ontem: a sexta-feira subiu ao autocarro em Santiago às seis da tarde. Dez horas depois chegou a Cáceres. Dez horas, compreendes? Isso significa que baixou à plataforma às quatro da madrugada! Deambulou pola cidade, porque nom havia hostais livres (nem muito dinheiro) e penso que até dormitou um bocadinho num banco da estaçom, até as nove que começou a visita. Quarenta minutos e fora. O próximo autocarro de volta a Galiza sai às onze e meia…da noite. Até entom, a gastar as horas e os quartos neste terrunho imundo. Hoje às nove e meia se nom falhou nada, deveu chegar a Santiago. Tu sabes fazer medalhas? (…)

13 de Junho de 2006, Terça-feira

Terça-feira, 13 de Junho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Tive reuniom com o Subdirector de Segurança. Parece um homem razoável, disse sim a algumhas cousas e negou-me outras, de forma que quiçá cumpra. Em um ou dous meses tenho que ter arranjados os problemas de comunicaçons, em concreto os telefónicos.

7 de Junho de 2006, Quarta-feira

Quarta-feira, 7 de Junho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Paolo Virno é um homem que nom tem nada que a ver connosco, um italiano dumha esquerda muito sofisticada, muito urbana, e acho que totalmente refractária aos nacionalismos. Reuniu umha colecçom de ensaios francamente obscuros, embora originais e dignos de consideraçom, num volume ao que deu o repulsivo título de “virtuosismo e revoluçom”, publicado em espanhol pola já mencionada editora Traficantes de Sueños. Entre as diversas genialidades que contém, há umha frase que resume a viragem teórica e prática que nos últimos três ou quatro anos deu umha parte do nacionalismo e do independentismo em concreto especialmente as organizaçons juvenis. Diz “A informaçom, por si própria, nom tem qualquer efeito, de nom achar-se vinculada a umha política prática social.” Para os que gastamos anos numha política que consistia em informar (das nossas razons e posicionamentos), umha frase como essa pode tumbar-nos como um bom soco de boxe. E nisso consiste a “política”, seja a dos partidos do sistema ou a dos extraparlamentários. Nom a nossa, agora, que por isso mais que política parece antipolítica, e mais que informar dedicamos as horas a tecer e estender práticas sociais, é dizer, comunalidades. Já que citei o livro, um outro trecho: “Trata-se é de fazer aparecer, ao menos por breves instantes, «umha outra realidade», no meio de aborrecimento da normalidade social, que nos permita viver e sentir entre nós aquilo polo que vale a pena continuar a luitar amanhám.” Por certo que também botou uns aninhos no xadrez, o Virno.

4 de Junho de 2006, Domingo

Domingo, 4 de Junho, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

(…) A vista de pássaro esta prisom deve parecer um pombal, porque as pombas, pardais e corvos aninham por toda a parte, nos telhados, nos beirais, entre as tabulaçons que atravessam as paredes do pátio. Algo terá a ver o velho hábito carcerário de dar-lhes pão desmiuçado, como os idosos nos parques, mas até parece que a construçom contribui no que pode, com os buracos e as oquidades. Às vezes vem-se cegonhas, mas nom os seus ninhos que em todo caso, como manda a biologia, estariam na torre-vigia e nom ao nosso alcanço. Digo ao nosso alcanço porque os pardais, que preferem as tabulaçons mais baixas, aninham tam rente a terra que alguns presos podem arranjar umha espécie de “casteller” para saquearem quanto acham, principalmente para se apoderarem das crias. Nom te parece paradoxal e triste que os presos capturem passarinhos para mantê-los como mascotes, rompendo-lhes as asas para os impedirem voar? E cuidam-nos com todo o mimo, porque no fundo trata-se é de achar um objecto para o seu carinho que nom lhes faça perder a virilidade, nom sei se estás a ver, de maneira que os beijam, acarinham-nos, falam-lhes em sussurros segredando-lhes puerilidades, e até chegam a mastigar-lhes a comida quando, passados dous ou três dias, a cria agoniza a olhos vistos sem que eles pensem em libertá-la, nem em renunciar a umha reincidência tam condenada à morte como a primeira vez. Da que pensar, nom sim? (…)