Arquivo do mês de Janeiro, 2006

31/01/2006, Terça-feira

Terça-feira, 31 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Os julgados de Colmenar Viejo dim que eu nom pudem achegar provas dos maus tratos recebidos no módulo de isolamento de Soto del Real, e portanto arquivam a causa. O previsto, vamos. Visto em perspectiva parece-me que o mais grave do assunto nom é a agressom em si, o bofetom e o demais. O grave, que é ademais muito grave, gravíssimo, é que com efeito eu nom podo achegar provas e em conseqüência arquivaram o caso. O caldeiro, e muito especialmente isolamento, abre um espaço de impunidade onde os porcos podem fazer contigo o que lhes apetecer, e nunca pagam por isso. Às vezes pagam por outras cousas. A semana passada detivérom um carcereiro em Madrid que se fazia de polícia para violar prostitutas de graça. Dias depois detivérom outro em Sevilha, porque vinha de matar a sua mulher. Estava bem que os trouxessem a este módulo (mas vai ser difícil).

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006

Sexta-feira, 27 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Chegou-me carta de Fernando, que me escreve desde a sua morada em Astúrias. A única pessoa da que me alegra mais umha carta do que um abraço! Espero que siga tendo que escrever, ou entom que podamos ver-nos cara a cara, mas nom porque volte senom porque eu saia! Hoje tomárom represálias contra o grevista de fame: de cabeça ao módulo 1, como Eduardo.

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006

Quinta-feira, 26 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Ontem Hamás ganhou por maioria absoluta nas eleiçons de Palestina. Aí vai umha associaçom de ideias, para quem a queira perceber: há uns dias comentava a divisa das guerras camponesas alemás do século XVI: esse comunista “Todo é de todos” sob o qual os dominados se unírom e avançárom armados contra os poderosos e os seus mercenários. Para completar o quadro deveria ter acrescentado que aqueles eventos tivérom lugar no contexto dos cismas religiosos que abalárom a cristandade e acabárom por troceá-la em várias igrejas. As revoltas encabeçadas por Thomas Müntz anteditas pertencem a esse fenômeno, já que surgírom envoltas no protestantismo radical que ultrapassou as posiçons de Lutero, e de facto propiciou a aliança deste com os príncipes e, indirectamente, com o próprio Vaticano. O discurso comunista formulava-se em termos pseudoreligiosos, tanto nesse caso como em todas as sediçons reiteradas na altura na Alemanha e nos Países Baixos, os anabaptistas sem ir além. Em todos os casos aboliam a propriedade sob norma de “Omnia sunt communia”, em todos os casos destruíam o poder feudal e eclesiástico, em todos os casos foi obra de labregos e artesaos. (more…)

Sábado, 21 de Janeiro de 2006

Sábado, 21 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Que fraude! Tanto vociferar, tanto entusiasmo e tanto “momento histórico” para que afinal acabe todo num Estatut que introduz a palavra “naçom” sem efeitos jurídicos… Isso, e algo menos de espólio fiscal, e aí tens outros vinte e cinco anos de “paz”. Para esta viagem, como se costuma dizer, nom cumpriam tantas alforjas. E se isso termina dessa maneira num pais onde o PP é marginal, em que dará a reforma aqui? E umha vez feita, quantas bocas nom calarám ou declararám “resolto” o problema nacional, ou polo menos avalizarám a legitimidade democrática do novo estatus? O que me pergunto é porquê os cataláns nom quigérom esperar um pouco para ver como se enceta o processo basco, onde sim se falará em términos de soberania (com outras palavras). Por isso vai tam devagar e com tantíssimas dificuldades, mas abrirá umhas possibilidades a que parece que ERC e BNG querem renunciar adiantando-se e fechando o capítulo antes que ninguém. E mentres tanto o Zapatero, com o seu sorriso e com a progressia e boa parte dos nacionalistas apaixoados por ele como adolescentes, vai desactivando núcleos de resistência ao poder como quem nom quer a cousa. (Por certo, a tensom carcerária foi outra fraude. Os protestos colectivos desinflárom-se ante os primeiros furas, o grevista de fame deixou-no aos três dias, e do SS nom se voltou saber mais).

Sábado, 21 de Janeiro de 2006

Sábado, 21 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Isto começa a animar-se. Ou bem há umha conjunçom estranha dos astros que faz com que aconteça todo ao mesmo tempo, ou entom o Subdiretor de Segurança anda adoecido à procura de festa. Seja como for, isto tem que acabar fatal em nom muitos dias. A ver se acabo a semana nesta mesma cela. Nesta cela em que estou só, por certo. Foi a primeira jogada do SS: apanhou o Eduardo Garcia e trasladou-no a outro módulo, de maneira que agora tanto ele como eu somos os únicos políticos nos respectivos módulos. Isso foi a segunda-feira. A terça buscou-me as cócegas a mim, com o pouco que podia e também com algo que nom podia… Nimiedades, afinal, tratando que seja eu quem a lie: roubou-me o Novas da Galiza e nega-se a devolver-mo, e vai-me impedir, sem direito nem motivos, mudar os números de telefone que tenho autorizados. A semana passada tocara-lhe a um basco, com o que mantivo um diálogo por escrito deste género. <i>”- Solicito me indique em que artigo do Regulamento Penitenciário consta a obrigaçom de formar nos recontos de isolamento. - Já que lhe interessa tanto o Regulamento, informo-o de que nom consta nele o seu direito e receber visitas os sábados. Daqui por diante comunicará os domingos a última hora”.</i> O que significa que os seus familiares e amigos chegaram ao País Basco na madrugada da segunda-feira… E todo isto ademais, por escrito! Hoje tocou a todos os presos, sociais e políticos. Por megafonia informam de que se proíbe ter comida ou bebida nas celas, quando todos tentamos paliar a subnutriçom da sua comida nojenta com produtos do economato, com os que fazemos um segundo jantar no “chabolo”. Os presos deste módulo, que contodo som do mais pacífico, andam zangadíssimos e já circulam consignas para protestos colectivos: “Que nos querem dizer inclusive quando e onde podemos comer? Pois amanhá que ninguém lhes apanhe comida!”. Duvido muito que cheguem a fazer nada, mas já se verá. Outro social, o anterior companheiro de cela de Eduardo, declarou greve de fame por outros puteios reiterados do SS. Sim, isto anima-se. A ver como segue todo.

Domingo, 15 de Janeiro de 2006

Domingo, 15 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Ganhou Feijoo e parece que termina o coqueteio com o “galeguismo” de parte do PP. Agora, com essa incógnita despejada, começará a revisom do Estatuto de Autonomia, com menos hipóteses que sempre de atingir mudanças substantivas: nenhum partido as deseja e ademais Feijoo, cujos votos som imprescindíveis, nom quererá permitir que se abra umha terceira frente a Rajoi. Também nom Tourinho, por certo, nem Zapatero, que já bastante tem com o que tem. A questom, logo, é a seguinte: se nom podemos conseguir umha reforma que respeite o direito a decidir o futuro sem injerências, entom… serve de algo gastar algum esforço nisto? Claro que é melhor que a Xunta tenha competências em, por exemplo, instituçons penitenciárias, mas isso nom vai ajudar muito à recontruçom nacional. Das leis e da sua reforma podemos almejar o reconhecimento dos nossos direitos; todo o demais corresponde-nos a nós, pola nossa própria mao. A ánsia polas competências nom é mais que um pálido reflexo do fetichismo do Estado, que nos convence de que apenas a administraçom pode transformar o País. Porém, que importância tem a acçom do Estado a respeito da língua, sem ir mais longe, em comparaçom com a do movimento popular? (Tanto suspirar polo poder político para acabar fazendo os mesmos cartazes com distinto logótipo…). Ao lado das campanhas institucionais, ao lado dos ressortes burocráticos e legalistas, a vitalidade do povo derrama-se por todo o espaço social e pom patas arriba os planos dos políticos. O nosso problema é duplo: a negaçom dos nossos direitos e a anêmia dos nossos movimentos sociais. Nenhum deles se debaterá em Sam Caetano nos próximos meses.

Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2006

Quarta-feira, 11 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

-Algum resultado? -Sei lá… Parecia zangado de verdade, diz que o oculista nom depende do cárcere e vem quando lhe peta, que é mais bem pouco. Diz que já está bem e que vai falar com a directora. -Total, que perdeste a aula de informática para nada. Disse-te ao menos quando calcula que terás a consulta? -Eee… nom, mas comentei-lhe o do incremento de dioptrias do olho esquerdo. Assustou-se, acho, e escreveu “preferentemente” diante do meu nome na lista de apontados ao oculista. - Ah, sim. Todos os nomes ponhem “preferente” diante. Funciona dessa maneira: conforme insistes um pouco escrevem-te “preferente”. Se continuas, “preferente-preferente”. A seguir, “preferente-preferente-preferente”. -Já vejo. - Levas poucos meses cá, já perceberás a maneira como as cousas trabalham. Quando passa um tempo, se tens persistido no intento de fazer-te com uns óculos, juntarás mais e mais “preferentes”. E quando chegues a quinze… presenteiam-te um balom. (Um anarquista explica os protocolos carcerários a um independentista galego cada dia mais míope, mentres passeiam pólo pátio do módulo).

Sábado, 7 de Janeiro de 2006

Sábado, 7 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Decidimos nom planificar mobilizaçons carcerárias, como greves de fame, encerramentos em cela, etc, porque embora sobrem motivos, parece que nom é o momento. Os motivos seguem aí: tribunal de excepçom, afastamento a seis centos quilómetros da família e amigos, e todas as condiçons de vida que conhecemos; o momento acabará por chegar. Mas por enquanto cumpre seguir luitando, de modo que eu dedico-me à sabotagem desorganizada, voluntarista e individual das infraestruturas estratégicas de Espanha, como umha guerrilha de hostigamento em território inimigo. Primeiro pensei na energia, sabotar o seu sistema energético por sobreconsumo, mas logo me dei conta de que a sua electricidade produz-se nos nossos rios e centrais térmicas, com que estaria a sabotar o meu país. Assim que apaguei as luzes da cela. As que funcionam som as que agrupei sob o nome genérico de “Campanha a prol da Pertinaz Sequia”, que visa esvaziar os pântanos espanhóis e sitiar Madrid por sede. Já se sabe que este é um país seco e ermo, que leva anos organizando procissons em demanda de líquido elemento (como a dança da chuva mas sem diversom) e mentres Deus nom bota umha mao a ponto estivérom de botar-lha eles a água do Ebro, para ir andando. (more…)

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2006

Quinta-feira, 5 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

“Que nom se trata de simples perguntas retóricas demonstra-o bastante bem o «experimento da prisom» que realizou Philip Zimbardo, um investigador da Universidade de Stanford, a pricípios da década de 1980. Zimbardo seleccionou umha série de sujeitos, todos eles com resultados «normais» na escala F sobre a personalidade autoritária elaborada em tempos por Theodor Adorno, dividiu-nos aleatoriamente em guardas e presos e situou-nos numha prisom fitícia. Os guardas rotavam em três quendas e deviam ater-se a um regulamento que, entre outras cousas, proibia categoricamente todo tipo de violência física contra os presos, inclusive, como é óbvio, no caso de que estes violassem os códigos de comportamento estabelecidos. Após seis dias, o experimento tivo que ser interrompido porque «a estrutura intrínseca da instituiçom carcerária produzira níveis crescentes de brutalidade, humilhaçom e desumanizaçom (dos carcereiros contra os presos)».« O mais chamativo e desconcertante para nós foi a facilidade com que é possível suscitar um comportamento sádico em indivíduos que nom tinham umha tipologia sádica (…)». «Estar inserto num marco organizado de dispositivos carcerários resultou ser condiçom suficiente para produzir comportamentos aberrantes e anti-sociais». É um outro trecho do livro de Curcio sobre esse experimento famoso que mostrava como o rol do carcereiro converte umha pessoa num porco. Agora, o experimento distribuía os roles aleatoriamente e entre pessoas normais. Na realidade os carcereiros som-no voluntariamente, suponho que por vocaçom, assim que o resultado já se pode imaginar. Nom sei se eram muito humanos antes de ser carcereiros; nom o som em absoluto desde que assumem esta funçom (existem algumhas excepçons estranhíssimas, já falarei delas outro dia).

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2006

Quarta-feira, 4 de Janeiro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

“O dispositivo do pedido é umha herança dos campos de concentraçom, que funciona ainda nos cárceres e nas demais instituiçons totais. A pessoa internada deve solicitá-lo todo, e aquilo que solicita pode ser concedido ou nom ao arbítrio e a discreçom de quem gere a instituiçom. Para comprar alimentos ou pasta de dentes, para poder ter umha visita ou umha conversaçom telefónica, (…), para qualquer cousa em qualquer cárcere o recluso tem que cubrir um impresso, umha solicitude, dirigido à direcçom: «O abaixo assinante roga de V.E. que lhe permita…». Este módulo relacional define um determinado regime de enunciaçom bem como umha hierarquia precisa que conleva um solicitante e alguém que concede. (…) A fonte de autorizaçom dos comportamentos, que normalmente reside no interior da pessoa, despraça-se desta maneira ao exterior, eliminando qualquer possibilidade de autonomia de decisom. A sensaçom absoluta que tem o recluso é a de encontrar-se nas maos de um poder absoluto, um poder que decide sobre a sua vida e a sua morte”. Todo o anterior verifica-se aqui, podo assegurá-lo. Mas o interessante é que este texto pertence a um livro, intitulado “A empresa total”, onde o que se estuda som as relaçons laborais em empresas de distribuiçom e comercializaçom, principalmente hipermercados. (more…)