Arquivo do mês de Novembro, 2005

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

Quarta-feira, 30 de Novembro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Há muito interesse por parte dos âmbitos que toca o poder de reduzir a violência contra as mulheres a umha questom de “alguns homens” que batem às “suas” mulheres. Pretendem socializar que é um problema de bébedos ou de homens nom bébedos que simplesmente estám enfermos, para assim fazer como que tenhem interesse em solucionar o problema criando leis ou “curando” os maltratadores. Como definir a violência de género? É complicado. Alguns sinónimos que se me ocorrem seriam maquilhagens, moda, tacons, talhagem da roupa, peiteados, despreços, insultos, risos de superioridade, paternalismos, limpeza dos fogares, partidos políticos, salários baixos, bonecas, barbies, cirugias estéticas, depilaçom, piropos, tópicos, capitalismo, consumismo atroz, ensino, educaçom, televisom, publicidade, cremas anti-celulíticas, dietas, anorexia, bulímia, fibromialgia,… A violência de género está explícita e implícita em quase todo o que nos rodeia e quase todo o mundo a exerce em maior ou menor medida. A mais cruel, ou polo menos a que visivelmente é mais cruel, que é a violência física de homens face as suas companheiras, é duplamente dura porque se trata de pessoas às que essas mulheres querem, e som humilhadas por eles umha e outra vez. (more…)

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

Segunda-feira, 28 de Novembro, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Leva o seu tempo apreender a lógica singular que rege a cadeia, se é que algumha há, cousa duvidosa. Mas o outro dia figemos quatro meses por estas casas e algo de experiência já fomos acumulando. Entre os episódios que melhor podem explicar o modo de funcionar dos carcereiros, eis a minha liorta por um flexo: Aclaremos de início que nas celas a única luz que há é débil e está situada longe da mesa, polo que para ler ou estudar ou escrever há que escolher entre fazê-lo na cama e com luz, ou na mesa na penumbra. Antes vendiam flexos no economato e assunto resolto. Ao chegar eu suprimírom-nos o economato e houvo que consegui-los polo serviço de compras externas (”demandadeiro”), mas justo a semana que pudem pedi-lo decidírom retirá-lo também da listagem de produtos que se podiam adquirir, como também proibírom que os introduzíssem os familiares e amigos via pacote. Entendamo-nos: nom estám proibidos os flexos na prisom. Estám proibidas, isso sim, todas as vias para comprá-los: economato, demandadeiro ou pacote. Excepto, naturalmente, o mercado negro (comprei um por seis euros e estragou-se à semana, depois de fazer saltar os fusíveis do módulo). (more…)

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

Segunda-feira, 28 de Novembro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Há três dias foi o Dia contra a Violência Machista, que melhor forma de retomar as minhas impressons sobre o patriarcado dentro do talego que dous dias após a comemoraçom dessa data. E digo dous dias após porque me propugem evitar escrever sobre género nas datas comemorativas da luita das mulheres: há que falar desde umha óptica feminista tanto esses como o resto dos dias do ano. Já tenho falado de cómo actuava o patriarcado em Soto del Real como cárcere de homens e mulheres. Cá em Ávila, o conto troca por só haver mulheres presas (bom, salvo quando estava Luis Roldán, mas este ficara apartado do resto entom nom conta). Os únicos homens que se vem som chefes de serviço, director de prisom, chefes de segurança, cozinheiros e encarregados de mantença. Por suposto, também estám os cregos e os que lhes venhem acompanhando, há algum que aparece durante um curto espaço de tempo para dar algum curso e para de contar. Entom, as relaçons que existem neste talego som maioritariamente entre mulheres. (more…)

Sábado, 26 de Novembro de 2005

Sábado, 26 de Novembro, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Curioso como se passa o tempo aqui. Como veloz, e como baleiro. Hoje cumprimos quatro meses desde que nos encerrárom em prisom; parece que foi ontem e parece que nom existisse nada que justificasse esse período de tempo: nem luitas, nem textos políticos, nem estudos, nem muitas leituras até. Eduardo afirma que se deve à compartimentaçom do tempo, aos horários da prisom: tam absurdos que deixariam escapar os minutos entre as regandixas, impedindo que nos organizemos para aproveitar as horas. A compartimentaçom dum dia pode ser esta: 8:00 Reconto 8:30 Pequeno almoço no comedor 9:30 Inglês no módulo cultural 11:00 Tempo morto (nom se pode empregar a sala de estudo) 13:15 Almoço 14:00 Chape nas celas 17:00 Baixada ao módulo, recolhida do correio e imprensa (se houver). 17:30 Ginástica 18:30 Tempo morto (nom se pode empregar a sala de estudo) 20:30 Jantar 21:00 Chape nas celas 24:00 À cama Os momentos próprios para a escritura, leitura ou estudo seriam os “tempos mortos”, mas a sala de estudo está ocupada com aulas e no pátio ou na sala é impossível, polo ruído e pola falta de mesas e cadeiras. Ou entom nas horas de encerramento na cela, catorze e meia cada dia: seis delas de vigília, mas sendo dous faz-se difícil, porque só há umha cadeira e umha mesa anana, porque a música de um desconcentra o outro, etc. E isso que na minha cela nom temos tevê! Estudei várias soluçons possíveis, todas imperfeitas. Afinal resignei-me a perder os tempos mortos de pátio e aproveitar os chapes o melhor que podo. Mas nom me dá para muito mais que para responder as cartas, para ser franco. Assim que os carcereiros vam ajudando-me como podem, de vez em quando. Hoje, por exemplo, acabam de comunicar-me que a sançom polo plante de Giana e meu em Soto é de doze dias de isolamento. Como doze? Porque entendem que a tentativa instintiva de soltar o meu braço da mao do carcereiro, retrocedendo um passo, entra no tipo de “agressom/ameaça/coacçom a carcereiro”. Vaia figuras… Enfim, como da outra vez recuperarei tempo, estudarei e lerei até aborrecer-me, assim que nom protesto. O único mau é que vai um frio do demo e em isolamento nom botam o ar aquecido que alivia as noites nos módulos, e a duche, sem estar fresca, nunca passa de morna. Vamos, que se passa frio ainda em pleno verao, para quanto mais neste inverno castelám. Mas com algo de roupa e de exercício… Talvez me encontre o Fernando, ademais, com o que coincidim anteontem na visita dos advogados: ficou só no módulo de isolamento, ao longo do dia nom vê mais do que carcereiros. A ver se nos encontramos nas duas horas de passeio diárias.

Sábado, 26 de Novembro de 2005

Sábado, 26 de Novembro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Hoje tivem umha outra visita, a da I. Todas as primeiras visitas resultam-me muito emotivas porque fai muitos meses que nom vejo estas pessoas. Estava estupenda como sempre, mas também como sempre fijo-se-me curtíssima e de novo, como sempre, a lembrança ao voltar para o módulo. A dispersom das presas políticas e dos presos políticos é umha ferramenta mais do sistema repressivo, mas pensar nas horas e no dinheiro que inviste quem te quer, jogando-se o tipo nas estradas para vir, para logo ter 40 minutos de merda através dum vidro, é descorazonador. Quigera que pudessem notar o meu agradecimento, mas nem sei como fazê-lo. É evidente que o fascismo pom todos os seus meios, que som muitos, para destruir o nosso círculo, para que nos rendamos, para que nos afundamos num poço obscuro, e nom o consiguem. A vontade de luita e de resistência observa-se até nas cousas mais pequenas. Visitar as presas e os presos é umha delas: significa dar-lhes nos narizes e rir-se directamente da sua carreira de obstáculos; é dizer-lhes que nom importa o que fagam já que a nossa vida nom merece a pena se nom é em liberdade, se nom é de forma digna. Eu nom som livre, é certo, mas também nom o era no meu País. Dispersando-nos pretendem apagar-nos aos poucos, cansar-nos, fazer que desistamos. É duro para quem vem, mas também o é para quem está presa, já que vês o seu esforço, gente com poucos meios que fai por estar ai umha vez ao mês sem falhar nunca. Apesar de ser ilegal, nom lhes preocupa -bom, também é ilegal a tortura e já vemos-, tenhem que por todos os meios para fazer-nos o mais difícil possível o caminho à liberdade, mas ainda assim nom o consiguem.

Quinta-feira, 24 de Novembro de 2005

Quinta-feira, 24 de Novembro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Já está livre. Penso que esta vez o passei pior do que na primeira detençom. Igual porque saber que estava sozinha, e que tinha mais papeletas para que a deixaram dentro, me angustiava muitíssimo mais. Pensava no tempo que passaria até que a voltasse ver, ou que nom ia poder estar com ela para dar-lhe ánimos. Ainda por cima nom a podo chamar -levo duas semanas sem ser quem de que me colha a ligaçom-. Nom sei como se atopa, nom sei se está assustada, ou se está animada, nem sequer sei qual é a sua percepçom sobre este ataque contra ela e sobre esta acossa à AMI tam descarada… M., minha menina, muito ánimo e muita força. Sinto nom poder estar a teu lado, mas já sabes que me é impossível. Pola noite sonharei que viajo até Ourense e que te abraço para que saibas que sempre me terás ai apesar dos muros e das reixas que nos separam. Ánimo companheir@s, que A VITÓRIA É NOSSA!

Terça-feira, 22 de Novembro de 2005

Terça-feira, 22 de Novembro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Parece que esta semana voltamos ter dança. Estes fascistas nom descansam. Hoje voltei chamar o responsável nacional de Ceivar e me comentou que a M. a voltaram deter esta segunda, ou seja ontem. Esta vez um julgado ordinário na Galiza, mas outra vez o estrês. Volto sentir medo, ainda está detida a minha menina e o pior é que nom creio que voltem fazer umha segunda ronda para deixá-la na rua. Umha outra vez dessesperaçom. Tenho só quatro chamadas (umha já a gastei) e a ver como as reparto. Aguardo que parem de umha vez: se querem entrulhar alguém, que o fagam, mas como sigamos assim todas as semanas vai-me dar um infarto. Imagino as companheiras fazendo cartazes em estraça, a Ceivar organizando mobilizaçons e a impotência de sentir que nom podo fazer nada, que estou aqui sequestrada e que contam com quatro maos menos para trabalhar.

Domingo, 20 de Novembro de 2005

Domingo, 20 de Novembro, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Ontem tivem outra visita muito especial, o J. Evidentemente, bombardeei-no a perguntas sobre todos os sucessos que se passárom esta semana, mas o que me contou já mais ou menos o sabia. Todas e todos bem, com ánimo e com a peja de ter que apresentar-se cada 15 dias no julgado. É de analisar o comportamento dos media perante as detençons: a nível nacional, umha cobertura de impressom, e a nível estatal apenas mencionárom nada. Salvo a imprensa basca, como o Gara e o Berria, nos jornais estatais como El Mundo e El País umha mínima nota de imprensa falando da detençom e umha outra falando da libertaçom. O que podemos deduzir? Há várias possibilidades: que a nível galego tentem relacionar o troco de governo com um salto qualitativo do independentismo na sua organizaçom revolucionária, mentres a nível espanhol nom querem ter mais problemas de naçons sem Estado que se enfrentem de verdade contra o Império. Também pode ser que o interesse de achantar este tipo de actuaçons lhes seja impossível a nível nacional pola magnitude e a parafernália dos factos, mentre sim existe essa possibilidade a nível estatal. O certo é que há cousas que som insilenciáveis e penso que deter dez pessoas curtando estradas e intervindo locais sociais é umha delas, sobretodo quando o carácter exclusivamente político da acçom -deter todas e todos os responsáveis da AMI- actua como denúncia explícita neste acto repressivo. A verdade é que sim me chamou a atençom que algo assim nom fosse digno de ser mentado na imprensa espanhola, sobretodo quando na galega leva copando a atençom de todos os meios durante toda a semana, polo menos o que podemos tirar de positivo é que a manipulaçom política da informaçom sae à luz em situaçons deste tipo.

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005

Sexta-feira, 18 de Novembro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Afinal, todas e todos livres. A passada quinta-feira ainda estava absolutamente angustiada e ao subir à cela ao meio-dia procuro no teletexto as novas sobre a Galiza, e porfim podo respirar tranquila: todo o mundo à rua. Era demasiado, o conflito Galiza-Espanha ainda nom está o suficientemente avançado como para que tomem umha decisom politica desse calado, mais do que nada porque lhes seria contraproducente. Nom podiam empapelar toda essa gente pola cara e sem nengumha causa concreta, o que fariam? Teriam-nas quatro anos em prisom preventiva e logo à rua? A solidariedade move mais gente do que o trabalho simples. Afinal, som os sentimentos e a frustraçom os que nos carregam as pilhas, os que nos dam valentia, quando há gente que queres que está recebendo paus a entrega é maior, e isso é algo que se leva apreendido ao longo da história da humanidade. O Estado espanhol tem um conhecimento sobre repressom bem amplo; quem vai saber melhor do que eles que umha resposta desproporcionada cria o efeito contrário? Se nom jogam bem as suas cartas neste momento pode ser que o jogo se lhes escape das maos. O que nom sabem é que nunca estivo nas suas maos.

Terça-feira, 16 de Novembro de 2005

Quarta-feira, 16 de Novembro, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Polo menos acertei na parte boa das hipóteses: houvo galegos de todas as famílias comportando-se como é devido e saindo à rua a dar a cara polos detidos e as detidas. Parece que nom há queixa, que cresce a indignaçom e que talvez mesmo dê para umha campanha anti-repressiva como é devido, para devolver o golpe. Alivia sabê-lo, porque quando um nacionalista deixa de sentir-se concernido pola detençom de outro nacionalista, perde essa condiçom e o País encanalha-se um pouco mais. Mas mentres se sinta parte e entenda estes acontecimentos com a lógica da comunidade nacionalista agredida por um Estado estrangeiro, mentres tanto podemos orgulhar-nos da nossa Pátria e seguir empurrando a carreta, como a Mae Coragem de Brecht. Alivia isso, a nobreza de muitos e muitas boas galegas, e alivia também a firmeza e a dignidade dos detidos; nem um flaqueio, nem um titubeio, nada. Assim dá gosto. Nom é de estranhar que o inimigo tenha tanta raiva contra eles, que até desencadeia um espectáculo como este da “desarticulaçom da AMI” sem mais indícios contra eles do que a sua resistência e um patriotismo a toda prova.