Arquivo do mês de Outubro, 2005

Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005

Segunda-feira, 31 de Outubro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Hoje é um dia triste. Inteiramo-nos ontem de que se suicidou numha prisom espanhola um companheiro basco. Em si a história é bastante truculenta, mas cada quem vive esta situaçom da forma em que melhor pode. Quero render-lhe a minha homenagem pessoal a José Ángel Alzuguren Perurena, ‘Kotto’, e a todas as pessoas que estám a sofrer a sua perda. Em toda guerra há baixas nos dous bandos enfrentados, mas quem decide caír por própria decisom é evidente que tem que estar ao limite. Nom se pode descrever com palavras o valeiro que sentimos perante umha nova assim, mais umha vez o Estado espanhol acaba dalgumha forma com umha pessoa que entrega a sua vida a defender o que é justo. Objectivamente, existe a justiça, e nom emana nem de Instituiçons nem do poder, emana do povo e é o povo o único sujeito capaz de administrá-la. Nom há “interesses económicos” na justiça popular, e quem o ponha em dúvida nom merece formar parte desse colectivo. O POVO É QUEM MAIS ORDENA. Hoje mais do que nunca quero gritar, quero alçar o meu dedo acusador contra quem extorciona e mata as inocentes. ESTADO ESPANHOL ASSASSINO. Até sempre, GUDARI.

Segunda feira, 31 de Outubro de 2005

Segunda-feira, 31 de Outubro, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Hoje apareceu morto na sua cela, enforcado, um basco preso em Sória. Antes estivera cá, em Navalcarnero: os daqui conheciam-no e hoje andavam feitos pó com a notícia. Ou com a nom-notícia, em realidade, porque os Bourbons parírom um outro filho e portanto o mundo está suspendido por uns dias; ou se nom o está parece-o, porque embora arda polos quatro cantos os jornais e televisons nom prestam ouvidos mais do que ao “acontecimento”. Assim as cousas, pouco importa que um preso se mate na sua cela, num lugar onde a responsabilidade do Estado está à vista de todos. Um, ou dous, ou mais, porque hoje em concreto nom foi apenas o basco, também um social na mesma cadeia pujo fim aos seus dias. E desde há quinze dias houvo dous ou três mais, sei lá onde, mas o tema é tam grande e sério que agora em Navalcarnero andam organizando umha rede de presos para ensinar-lhes algo de “prevençom de suicídios” e pô-los a viver com os que eles vem que nom aturam mais. Ocorre-se-me que seria interessante comparar a proporçom de suicídios entre a populaçom total com a populaçom reclusa. A diferença, com certeza escandalosa, acho legítimo atribui-la à responsabilidade do Estado. Crimes de Estado, ou do sistema carcerário como tal. Quantos serám? Quantos cadáveres terá acima da mesa a Gallizo, directora de Instituiçons Penitenciárias? Cinco ao ano? Vinte? É difícil dizer porque nom costumam sair na imprensa. Pola minha escassíssima experiência carcerária pouco sei: em Soto, no módulo 2, umha noite vinhérom por um preso morto e nom voltámos saber dele, é dizer, estava morto mas nom se sabe com nem por que. Em Navalcarnero, no 2, havia dous “suicidas potenciais” quando eu cheguei. Algum carcereiro, numha explosom criativa, decidiu colocá-los na mesma cela: essa mesma noite um curtou-se as veias. Sobreviveu, de milagro, e o outro por algum extranho motivo nom seguiu o seu exemplo. Este caso nom entraria na estatística de suicídios, talvez mesmo a ocultem e nom compute como “tentativa”. Mas ajuda a aquilatar os carcereiros e os seus chefes. Vaia personagens.

Sábado, 29 de Outubro de 2005

Sábado, 29 de Outubro, 2005


Giana Gomes

Giana Gomes


Hoje chegou Itsaso, umha das compas que estava em Soto. Tremenda surpresa já que nom a aguardavamos. Umha semaninha só em Soto nom está nada mal. O certo é que cada vez que algumha tem que voltar para esse “cárcere de extermínio” é como um baixom terrível, as condiçons lá som muito más para nós, tenhem-nos em quarentena e nom nos permetem fazer nada do que oferta a prisom. De facto esta semana chegárom-me dous presentes de Soto para que nom me esqueza que segue estando aí: dous partes, um polo chape que figemos o Ugio e mais eu pola sua paliça e outro por mandar umha carta ao director denunciando que às mulheres de Madrid V nom se nos abriam as duches do pátio, com o que tinhamos que fazer desporto e ficar sujas até voltar à cela. A carta estava pragada de retranca de princípio a final, e entendérom com ela que nom lhes tenho respeito nem às carcereiras nem à instituiçom. Nom é muito complicado deduzir algo assim, nom é preciso baseiar-se em carta nengumha: é evidente que estar cá nom é umha decisom minha, isto é umha imposiçom e cada quem elege a que, ou a quem, deve respeito. Eu respeito o meu povo e quem luita por ele; era o que me faltava sentir respeito pola repressom em última instáncia do Estado espanhol e das suas instituiçons.

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

Sexta-feira, 28 de Outubro, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Estám chalados. Nom fijo falta denunciar o Subdirector de Segurança (no sucessivo, SS), bastárom várias instáncias tipo “quero os meus jornais”. Claro, respondeu com reiterados “eu disso nom sei nada, todo o que recebemos enviamo-lho o mesmo dia”. Mas onte deu-me o do 13 de Outubro, e hoje os do 25 e 12 de Outubro. Isto nom há quem o entenda. Como o das visitas. Inteiro-me de que nom lhes constam as oito pessoas que eles mesmos me autorizárom, apenas os três da primeira visita. Como é amanhá já nom tenho tempo de arranjá-lo e virám dous dos que já vinhérom. Ou bem tratam de fastidiar-me, ou bem trabalham ao estilo espanhol: Vuelva usted mañana, e todo isso. Como me comentou um companheiro falando precisamente disto: Larra. Por certo, estes dias chegou um cargamento de bascos de Soto, entre eles Arkaitz, do módulo 2. Parece-me que teremos tempo de reencontrarmo-nos todos os daquele módulo, numha cadeia ou outra, um ano ou outro.

Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005

Quinta-feira, 27 de Outubro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Hoje recebim correio. Duas cartas que me fizérom muitíssima ilusom (bom, como sempre). Umha dumha compa de Ceivar e umha outra, a que mais me surpreendeu, dum home de Zaragoza, reformado já, que se escreve com presas políticas e presos políticos desde já há bastantes anos. Começou ao receber da sua filha um panfleto com os endereços dalgumhas pres@s do Grapo e PCE(r) numha marcha contra a base militar de Rota. A partir daí já estivo num juízo no Estado francês contra pres@s deste colectivo, visita um preso político galego do mesmo e escreve-se habitualmente com muitos outros. Sabe de mim por um anarquista que está com o Ugio em Navalcarnero e, olha, já se pujo em contacto. É o primeiro espanhol que me escreve solidarizando-se com a minha situaçom, e o certo é que me deu que pensar.

Terça-feira, 25 de Outubro de 2005

Terça-feira, 25 de Outubro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Esta semana está a ser bastante rara. Por umha parte, levárom-se a Soto as três bascas que compartilham vivências com nós; por outra, à Iolanda acabam de dar-lhe a data do seu juízo (já leva mais de três anos preventiva e se aos quatro nom a julgam, à rua; por suposto essa possibilidade nom existe). Além de todo isto, a umha compa do Grapo, Marijo, acabam de meter-lhe um primeiro grau e levárom-na para Gasteiz. Foi umha surpresa bem desagradável já que a levárom há um mês para Soto de conduçom e já nom voltou mais. Ainda por cima, está lá sozinha já que por culpa da dispersom nom há mais presas políticas nesse cárcere. Nom descansam no seu intento de fazer dano.

Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005

Segunda-feira, 24 de Outubro, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Deixei de fumar. Levava meses à procura de um bom motivo, nom me convencim os argumentos da saúde, e os económicos sim pesam, e mais agora que nom vivo do meu trabalho, mas nom o suficiente porque de resto nom gasto muito, conformo-me com pouco. Afinal dei com um argumento a que nom me podo resistir. A minha segunda visita a chopano em Soto foi mais levadeira do que a primeira, porque coincidim lá com Francesco (nom sei se já falei dele aqui), o anarquista italiano que iam extraditar por pertença a umha organizaçom armada. Por descontado passamos o dia a conversar de todo, de política, das respectivas peripécias antes e depois de caír, etc. Mas já de começo, ao pouco de chegar eu, perguntou-me: - Trouxérom-te sem nada, nom é? - Nada, nem livros nem rádio, nada. - Nom te preocupes que já eu che passo revistas. Lês italiano ? - Podo tentá-lo, o que tens? - O “Progetto Memoria” de Curcio, conheces? - Ouvim falar. - Fumas? - Fumo, mas apanho-me bem sem tabaco, descuida. Ti fumas? - Nom, eu som straight edge. - Vaia, lamento, isso tem cura? Bem, isto último nom lho digem mas podia tê-lo feito perfeitamente. (more…)

Domingo, 23 de Outubro de 2005

Domingo, 23 de Outubro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Há já três meses da minha detençom, boto a vista atrás e dá-me a sensaçom de levar cá toda a vida. As presas temos umha dupla sensaçom de tempo; por umha banda, que se passa muito rapidamente e, por outra, que antes disto nom havia nada. A leitura que fago é que por umha parte nos adaptamos muito facilmente a este novo “ecossistema” e por outra que aqui nm existe o tempo como variável. Esta é umha paréntese na nossa vida, e quando a retomemos, seguiremos com a mesma idade com a que entramos.

Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

Sexta-feira, 21 de Outubro, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Hoje levárom-se as três bascas de conduçom a Soto por questons diferentes, já que Amaia marcha para Euskal Herria de testemunha a um juízo e as outras duas vam a algo da Audiência Nazi. O certo é que se nota muito, já que apenas ficamos cá quatro pessoas. Mas é bom afazer-se a esta situaçom porque umha vez que é o juízo e tes que cumprir condenaçom (ou seja, já nom estás preventiva), normalmente te levam a umha outra prisom onde com segurança se nom ficas só, quase, e metem-te num primeiro grau, com o qual apenas tes espaços comuns com os que compartilhar vivências com as companheiras (se as há), um regime carcerário muito mais estrito e com muitos menos direitos. Finalmente vai ser umha bençom estar quatro anos preventiva, já que como estes anos também contam, som quatro anos num regime bastante bom que te sacas do primeiro grau.

Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005

Sexta-feira, 21 de Outubro, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Porque me dá igual passar uns dias em chopano, que se nom era para montá-la gorda. O primeiro parte vale: dez dias polo plante de Agosto. Mas o do segundo é para morrer de riso. Ainda nom culminou o processo, mas por enquanto a “prega de cargos” explica o meu chapeio (o conjunto com Giana por ter-me batido) e o seu precipitado final com estas palavras: “(…) se niega a salir de su celda (…). Personado el jefe de servicios se vuelve a negar a obedecer la orden, ofreciendo resistencia y revolviéndose contra un funcionario que le había sujetado por el brazo, es llevado a aislamiento”. Em suma, que tratei de ceivar o meu braço, simplesmente retrocedendo. E o melhor de todo: “los hechos descritos pudieran ser constitutivos de FALTA: a) 108 B Agredir/amenazar/coaccionar personas… MUY GRAVE… Aislamiento entre 6 y 14 días”. Como podem ter tanto morro? O mesmo carcereiro que a semana anterior contemplara impávido como me bateram, esse dia nom só me agarra primeiro polo braço e depois polo pescoço, senom que ademais o mui porco acusa-me de “agressom/ameaça/coacçom”! Disso e da “resistência activa”, claro, como no outro parte. Duvido se alegar ou deixar correr o tema. Por umha parte o isolamento nom me desgosta, seguro que lhe tiro partido escrevendo e estudando. Mas polo outro, nom responder de algum modo a esta canalhada parece-me intolerável. Algo, algo dalgum género, haveria que fazer para pôr as cousas no seu sítio (mas nom creio que alegue). Outro exemplo da condiçom de pequenas e míseras alimanhas dos carcereiros: roubárom-me os jornais dos dias 12 e 13. Os que recolhiam a concentraçom contra o bandeirom de Paco Vázquez. E eram meus: estou subscrito, enviam-mo da Galiza todos os dias. Mas os do 12 e 13 desaparecêrom, apenas me passárom os anteriores e os seguintes: 14, 15, 16, 17, 18,… Contam os bascos que costuma acontecer-lhes com o Gara. Por isto sim os denuncio. Ao Subdirector de Segurança. Por roubo.