Arquivo do mês de Agosto, 2005

Terça-feira, 30 de Agosto de 2005

Terça-feira, 30 de Agosto, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

A semana passada tivemos bastante dança. Ao Ugio, pola contra que a mim, juntárom-no na cela com presos sociais desde que entramos cá. Agüentou quase um mês até que decidimos que se plantava. Justo estava recém chegado ao seu módulo um preso político do IRA e os dous combinárom em que se dobravam juntos na cela. O carcereiro de turno negou-se, com o qual o Ugio se viu obrigado a plantar-se -negar-se a entrar na cela pola noite, prévia instáncia avisando, por suposto…- e acabou com os seus ósos no txopano -nome talegueiro que lhe damos ao módulo de isolamento-. Lá, e depois dum cacheio integral, receveu umha malheira por parte do funcionário de turno, e depois dum dia com a sua noite sem fumar, sem passeios e sem poder fazer mais nada que mirar para as paredes dos escassos dous metros quadrados de chavolo, voltou para o módulo e dobrou-se com o do IRA. Amanhá vamos fazer um protesto conjunto pola devandita malheira que vai consistir num chapeio de 24 horas, isto é, vamo-nos negar a saír da cela em todo o dia, prévia instáncia avisatória, por suposto. A ver como é que remata o conto…

Domingo, 28 de Agosto de 2005

Domingo, 28 de Agosto, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Ontem fomos à piscina de 11:15 da manhá até as 12:45 h. Um dos pouquininhos momentos de distensom da semana -apenas vamos as quartas e sábados-. Saimos do módulo e nos libramos assim do ruido da televisom e das rádios alternando as diferentes cançons do verao. Mas no polidesportivo, que é onde está a piscina, nos temos que enfrentar à visom de dous tremendos nazis que se passeiam com todos os seus privilégios carcerários polo único sítio onde há mulheres ligeiras de roupa de todo o centro. Som o fascista do Atlético de Madrid que matou Aitor Zabaleta num partido desta equipa contra o Atléti de Bilbo e mais um outro skinete com simbologia tatuada, que nom sabemos de certeza porque está “preso”. Os seus méritos pola defesa da Ultraespanha tenhem a sua recompensa traduzida em penas irrisórias e em ser os amos do cárcere. Até o ponto de poder estar no polidesportivo os escassos dias que vamos as mulheres. Há um outro que me pom os pelos de ponta. Está cá por assassinar e desquartizar à “sua” mulher. O seu prémio é para nós um castigo, pior inclusivamente do que a possibilidade de isolamento, ou pensar em ficar presa a metade da nossa vida.

Domingo, 28 de Agosto de 2005

Domingo, 28 de Agosto, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Começárom chegar as primeiras cartas, um mês depois de serem enviadas. Por suposto a demora deve-se a que me intervenhem o correio (igual que gravam as chamadas e as comunicaçons de loqutório), já me avisárom por escrito. Mas chegar, chegam igual, e entom é umha festa. Por agora dérom-me sete, quatro delas de pessoas que nom conheço mas que me dam ánimos e abraços. A solidariedade com os presos políticos quase se dá por suposta, mas comprová-la em primeira pessoa levanta a moral de qualquer um, agradecem-se sinceiramente. Apressurei-me a contestá-las, pensando na demora que os carcereiros e polícias acrescentarám à minha.

Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005

Sexta-feira, 26 de Agosto, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Começo escrever hoje, polo único motivo de que se cumpre um mês exacto do meu sequestro espanhol. Há umha frase que tenho escuitado por aqui que resume muito concretamente o que som as prisons: a razom termina exactamente onde começa Instituiçons Penitenciárias. É exactamente assim, a burocracia nom tam só é absurda, senom que aqui, muito mais do que fora, é um meio para interromper, incordiar e impedir as nossas possibilidades de agir em liberdade. Horários de Hospital, recontos e mais recontos, comida para cans e as ultrameganecessárias instáncias -coraçom da burocracia- que nunca há.

Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005

Sexta-feira, 26 de Agosto, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Agora os políticos completamos já as duas mesas: seis bascos, o irlandês e eu. Os bascos parecem-se com a sua imagem tópica: extrovertidos, festeiros, tenazes. Principalmente Igor, alcumado “Enfermo”, e Karmelo, “Elkiza”, que aliás som os dous únicos membros de comandos, os únicos propriamente militares. Sabem que os condenarám a quarenta anos (efectivos), e nom lhe dam muitas voltas à cabeça. Depois está Ibon Arbulu, que nom milita em ETA mas em Ekin: um político, mas isso nom faz diferença para os juízes espanhóis. Txapi tem o juízo em Setembro e talvez saia já de prisom, absolto (mas os três anos que leva preventivo já estám pagados). De Arkaitz recordava ter ouvido algo, porque o detivérom por colaboraçom quando trabalhava como polícia municipal: um escándalo. O mais novo é Beñat, também por colaboraçom. A vida com eles passa entre risos, vaciles, jogos de pelota basca e partidas de mus. E conversas políticas, naturalmente. Leonard tem o duplo problema de nom falar espanhol e nom falamos nós inglês. Apenas o Txapi se defende um bocado, e eu o justo para perceber dificultosamente que o procuram por acçons contra bases militares británicas na Alemanha no 1979, que tem quatro filhos, um de só cinco semanas, e que confia no processo de paz, embora “we never said war is over”. Em qualquer caso conviver com ele ajuda-me a refrescar o inglês, olvidado desde há quase dez anos. Quando o levem já deveria falar com algo de soltura.

Quarta-feira, 24 de Agosto de 2005

Quarta-feira, 24 de Agosto, 2005

O principal obstáculo para a

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

fazer-se à vida carcerária deve ser a total falta de lógica que rege as cousas. Em geral as normas, escritas ou tácitas, nom tenhem valor nenhum, e o determinante acaba sendo o carácter do carcereiro de turno. Ontem, por exemplo, estavam de turno dous cabrons cheios de ódio polos presos, e mais polos políticos. Fomos Leonard Hardy (o do IRA) e eu falar com eles para a mudança de cela, e com maus modos respondêrom que nom, quando todos os presos o fam habitualmente. Nom argumentárom nada: nom é nom, sem motivo nem lógica. O qual é incompreensível, porque aos políticos classificam-nos como FIES-3, e está escrito que os FIES apenas podem compartilhar cela com pessoas da mesma classificaçom. Mas isso é umha lógica e cá dentro está desterrada. Quando subimos às celas depois de jantar comprovei que me meteram um comum, um marroquino de nome Ismail, de modo que apanhei as minhas cousas com ajuda dos bascos, que levárom a maioria dos vultos às suas celas, e saim ao corredor. Fechárom as portas e neguei-me a entrar. Em resumo: “plantei-me”. Seguindo o curso normal das cousas, os dous tipos conduzírom-me a isolamento, um módulo onde se juntam presos “problemáticos” a que se aplica o artigo 75 com outros que se acabam de meter em lios, como eu, sob o artigo 72. Os primeiros vivem lá, com três horas de pátio e todas as suas pertenças. Os segundos nunca botam mais de dous ou três dias, sem pátio nem cousas, nem que seja umha caneta e um fólio. Antes de entrar, os carcereiros já somavam quatro ou cinco contando os de isolamento, e rodeando-me figérom-me um cacheio integral. Duvidei em permiti-lo, mas parece que todos os políticos acedem quando de isolamento se tratar, assim que tirei toda a roupa. Depois, já vestido, um dos carcereiros do módulo, sem meia palabra, arreou-me um ostiom na face, eu fiquei de pedra mais pola surpresa do que por outra cousa, começou a insultar-me -”Ya no eres tan valiente, en el fondo eres un cobarde”-, apanhou-me polo pescoço e entom deveu-se recriar umha cena quase engraçada dalguns filmes, porque me empurrou contra a parede e, mentres apertava a garganta, obrigava-me a por-me de pontas

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2005

Segunda-feira, 22 de Agosto, 2005

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Entre todos os presos políticos de Soto a Direcçom do cárcere escolheu-me unicamente a mim para gozar da companhia dum preso comum na minha cela. Nom creio que seja por umha aversom pessoal, nem por ser eu umha pessoa sobresaliente. Mais bem, ao sermos Xiana e eu os dous primeiros presos políticos galegos desta jeira, suponho que querem provar-nos, calibrar bem a nossa fogosidade intramuros. Ela tivo a fortuna de que o módulo de mulheres nom está massificado, de forma que nom só nom a “dobram” (acabarei por empregar com naturalidade a gíria carcerária, mas ainda me resisto) com comuns mas mesmo está só na sua cela. Eu, a contrário, caim já de começo na cela de Fernando, um gajo boliviano muito amável e simpático. Tardei em aterrar, e no intervalo houvo tempo para que o boliviano mudasse de cela e me metessem um alemao, Mijail, pendente de extradiçom. À sua vez, o home mais cortês e generoso que cá achei, dito seja de passagem, acaso porque nem se lhe passara pola cabeça dar com os ossos em prisom, e menos em Espanha, quando nom tem mais falta que algum assunto económico (impostos, penso). Pronto, eu já aterrei e ele foi-se embora hoje mesmo, com que agora estou só na cela e assim passarei a noite. Mas desde já vou iniciar a peleja polo direito a nom compartilhar cela com comuns, e imagino que amanhá tratarám de meter-me outro (cá entra gente diariamente). Apenas existe umha possibilidade para adiar um mês o lio, e é que esta fim-de-semana trouxérom um irlandês do IRA, ao que dobrárom com um comum. Como nom fala umha palavra de espanhol nem sequera se achegou os políticos, e até hoje mesmo nós nom soubemos dele. Amanhá proporei-lhe que venha à minha cela e assim, mentres aguarda pola extradiçom, evito o conflito com a prisom.

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2005

Sexta-feira, 5 de Agosto, 2005

Giana Gomes

Giana Gomes

Tenho muitas impressons da minha nova convivência com presas sociais. Há de todo como em toda a parte, mas este módulo é “especialmente especial”. Cá estám as moças que trabalham para a prisom, as que cumprem destinos -trabalham gratuitamente-, as que estudam e as que som boas mozinhas… Ou seja que é muito mais tranquilo, mas também há muitas chivatas. Sobre todo as espanholas que, pola contaminaçom mediática que há contra nós, pretendem mover seus fios para que nos fagam o vazio. Nom lhes funciona porque nos levamos muito bem com as sociais, sobretodo com as de fora do Estado que som a maioria. Mas, em quanto se achegam, começam a chantageiá-las. Por umha parte, chantageia-as a prisom -”Se me diz algo, damos-te permissons e benefícios”, “Se te faz amiga delas, ficas sem trabalho”-. Também as chantageiam as próprias presas -”Já lhes estades dando cancha, já as estades acolhendo”-. As presas alucinam com que mulheres que estám sufrindo o Estado em última instáncia atacam a quem lhes dá resposta ao seu assovalhamento. Nom se entende essa atitude…