Arquivo da Categoria ‘Ugio Caamanho’

23 de Fevereiro de 2008

Sábado, 23 de Fevereiro, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Nunca tal se vira na Galiza. Até agora o fascismo funcionava como um ruido xordo e constante, institucionalmente, sem estridências. Todos sabiamos que estava aí, identificamos os seus líderes, conhecemos os seus locais de encontro, os seus costumes, e via de regra preferem nom interferir connosco: podendo dominar com comodidade, para que íam buscar o conflito? Nada mais eficiente que a violência administrativa, isso é. E pronto, algum caso já víramos deste género. Nos anos 90, os resíduos do partido que sementou de galegos as valetas trazia um autocarro de Madrid cada 25 de Julho, e concentravam-se na praça santiaguesa de Maçarelos em honor ao patrom de Espanha. Creio que era o único acto fascista nas nossas ruas em todo o ano, e já era avondo. Aqueles eram um assunto mui particular, porque eram espanhóis espanhóis e militavam na Falange. Os fascistas galegos (espanhóis) olhavam para eles com estranheza e talvez paternalismo, da sua confortável posiçom no Partido Popular, amo e senhor destas terras. Nom se faziam notar. As ruas construiam-nas eles, com os seus planos urbanísticos e as suas empresas, mas habitávamo-las nós e isso nom parecia importar-lhes, ocupados como estavam em fazer caixa e contar votos. Isto está a mudar nos últimos anos. Vimo-lo esta semana com as mobilizaçons contra a lingua em Vigo e na Corunha, também na decana da que foi a minha faculdade, que correu á polícia para delatar uns alunos que protestaram contra umha conferência dumha fascista (ilegalizadora de partidos, perseguidora de jornais, apoio dos torturadores,…) na Universidade. (more…)

16 de Fevereiro de 2008

Sábado, 16 de Fevereiro, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Acontece constantemente. Dos polvorins sai um veículo que transporta os explosivos custodiado por pessoas armadas. Dirigem-se ao lugar indicado, descargam o material e entregam-no aos artificieiros que, seguindo os planos do arquitecto, distribuem-no nos pilares oportunos. Unem as cargas com cordom detonante e o detonador aos cabos eléctricos, que tendem até umha posiçom afastada do edifício. Três, dous, um, premem o botom de contacto e o prédio desmoroa-se, com umha explosom fortíssima que arroja escombros e levanta umha poeira muitos metros ao redor. Ponto final: cumpriu-se a decisom do promotor, que quer construir um hotel de cinco estrelas nesse solar, ou da Administraçom, que considera ilegal a construçom e botou-na abaixo contra a vontade do dono. Os artificieiros arrumam o seu material de trabalho e voltar a casa, amanhám é outro dia e tocará furar umha montanha para fazer passar o AVE, a desescamar um pouco mais umha canteira de granito. Acontece raras vezes. Dalgum lugar desconhecido sai um carro que transporta explosivos, sem custódia policial. Dirige-se ao lugar indicado, descargam o material já pronto para o seu funcionamento, colocam-no onde calculam que pode cumprir melhor a sua funçom e activam o temporizador. (more…)

2 de Fevereiro de 2008

Sábado, 2 de Fevereiro, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Um movimento de libertaçom nacional sem organizaçom política global pode arranjar-se de diversas maneiras. Ocorre-se-me umha: por meio de assembleias. Explico-me logo, pero antes reitero que por causa da distáncia e do pouco contacto com o dia a dia do País, estas linhas nom se tenhem que ler como umha proposta, nem sequera como umha opiniom definitiva; mais bem som especulaçons ao ar, cuja valia nem eu afianço e que, no maximo se referirá ás sugestons que suscite em quem as leia e reflicta desde a luita quotidiana na Galiza. Entom, suponhamos que recusamos emprender a enésima fundaçom dum partido político, sem, naturalmente, recusar intervir politicamente entanto que movimento. Como afrontamos as tarefas convencionalmente assignadas ao partido? Em primeiro lugar, haveria que esclarecer que os partidos, tais como os conhecemos -incluídos os nossos- som criaçons da modernidade destinados a gerir o ámbito separado do poder por meio da representaçom, no duplo sentido da cenificaçom teatral e a presunçom de que umha parte da sociedade, os eleitores, delegam neles a sua dimensom política. Noutras palavras, se o independentismo carece de partido, logo os independentistas carecem de representaçom. (more…)

26 de Janeiro de 2008

Sábado, 26 de Janeiro, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

É curioso como o independentismo catalám leva quase sempre um ritmo paralelo ao nosso ao menos desde os anos oitenta. Agora mesmo vivem um momento com muitissimas semelhanças, embora também diferenças essenciais. Nom trato de fazer nengumha equivalência nem sequera me encontro mui cómodo falando dum tema tam concreto quando levamos fora uns quantos anos e perdemos um pouco de perspectiva, mas, com as devidas reservas, sim me atrevo a assinalar as semilitudes entre a qüestom da organizaçom política nos Países Cataláns e na Galiza. Se o imperativo de aprender das experiências de outros povos é algo mais que palavrada, eis umha ocasiom esplêndida para aplicá-la. Como nós @s cataláns carecem de umha organizaçom política única desde finais de 80, existindo na actualidade vários partidos bem como umha organizaçom juvenil com forte papel político. Tendo-se embarcado desde fins de ´90 em vários processos unitários frustrados, nestes momentos nom esta aberta nengumha via para a constituiçom dessa força política, de facto entre a militáncia predomina o cansácio e o fastio para esse tema. (more…)

Sábado, 19 de Janeiro do 2008

Sábado, 19 de Janeiro, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Todo depende da perspectiva. Algo que nos parece clarísimo, que ao nosso ver nom admite mais que umha interpretaçom, porém doutro ponto de vista pode parecer justo o contrário, há que sabê-lo para podermos conviver. Quando os espanhóis falam em “tolerância” referem-se a isso: há que comprender que do seu ponto de vista as cousas som diferentes a como nós as vemos. Por ejemplo, durante o ano passado viegei muito polas prisons espanholas, em excursons curtas de menos de um mês, e depois voltara aquí, ao fim do mundo. Cada vez que voltas a Puerto passas umha noite ao módulo de ingressos, onde te cacheiam, te assustam e te revisam todas as pertenças. Numha das últimas vezes ocupárom-se desses mesteres dous carcereiros tagarelas que, depois de me obrigar a tirar toda a roupa e volta a vestir, ciscârom sobre o colchom o conteúdo das sacas, começárom a abrir todas os petos, a revisar as cartas, a palpar cada prenda de roupa. E mentres tanto, falavam comigo, com ár de superioridade e displicência, como era inevitável numha situaçom assim. “Assim que tu és galego, nom”, “e vós também nom queredes ser espanhóis?”, cousas assim. Com poucas palavras, mas eu desde a esquina tinha que responder, nom estava o forno para bolos, “queremos seguir sendo o que somos, e ponto”, e um deles, “pois nom se está assim tam mal em Espanha”. (more…)

Sabado, 12 de Janeiro do 2008

Sábado, 12 de Janeiro, 2008

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Passa mais dum ano que nom escrevo. Nas prisons nom acontecem muitas cousas, as essenciais vam por dentro e os dias, quando um os recolhe, os coloca sobre a mesa e os examina, parecem lánguidos, amorfos. Perante á carência de “eventos”, o mais concreto que se pode assinalar para marcar a passagem do tempo som bagatelas: esta semana fixem desporto três dias, quarta-feira escrevim umha carta, ontem vim tal filme. Olhas para o dia e nom o distingues do anterior, de qualquer um da semana passada, de um mês atrás, do ano que se foi, e essa é a sensaçom de interrupçom do tempo: o relógio parou e tu ficache atrapado entre as suas agulhas, num presente contínuo que fecha as quatro paredes do módulo com o último ferrolho. Nom podes sair deste espaço, nom podes sair deste tempo. Nom é certo, como sensaçom sim: nom há nada que fazer, ás vezes atrapa-te. Nom me queixo, essa é a sensaçom da prisom -e do exilio, acrescentaria o outro-, eu estou prisioneiro, e nom escapo á minha realidade, excepto que escape efectivamente. Por enquanto conheço este mundo e as suas sensaçons, e nom me creio infeliz por isso. (more…)

4 de Novembro de 2006, Domingo

Sábado, 4 de Novembro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

(…) Há gente que nom se entende se percebe e está espantada ante o desdém com que nos últimos tempos tratamos da organizaçom política e também da sindical, que sem os dous buques insígnia da luita revolucionária ao estilo antigo. E se bem nos factos nom se verificam mais que aspectos positivos destas renúncias, parece que a gente órfã sem estes instrumentos, por muito que à hora da verdade nunca saiba como empregá-los. Quando alguém me expom estas hesitaçons a argumentaçom mais solicitada é a globalidade: para coagular as micro-identidades agromadas nos nodos da rede social compre umha força política. O que se passa é que nessa formulaçom vam contidas duas asseveraçons, umha certa e outra evidentemente falsa, e a segunda poderia esconder-se na primeira para engabelar-nos: é certo que um moviemento como o que estamos a construir coxeia de elementos globalizadores que conformem um sujeito histórico nacional, mas nom o é em absoluto que um partido político poda cumprir essa funçom. Talvez sirva para outra cousa, mas desde logo na Galiza, no independentismo, o partido nunca é um elemento de uniom mas de divisom. Este assunto da globalidade nom é, contudo, do que te queria falar hoje. (more…)

29 de Outubro de 2006, Domingo

Domingo, 29 de Outubro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

(…) Se o essencial for este último motivo viria a propósito da crítica da cultura: mercantiliza-se tanto a literatura e o pensamento que só quando vêm envoltos em papel de presente é que os identificamos como tais, e destarte descuidar-nos todas as manifestaçons mais singelas que, por isto mesmo, estám ao alcanço de todo e que tradicionalmete praticamos a diário. Por exemplo, contar contos, ou relatar com graça algo que te aconteceu esta manhám, ou escrever umha carta, ou tentar convencer alguém dalgum argumento. É sempre comunicaçom e com efeito nom se trata de fazer virtuosismo verbal, como nas obras de ficçom, senom que se empregam as técnicas literárias como ferramentas… ou nom, porque também às vezes se fala por falar, e se escreve sem nada particular que transmitir, por puro gosto. Seja como seja nom se trata, e isto é que é o fundamental, dum autor conhecido contar cousas e um público anónimo e invisível. Aqui há caras, nomes próprios, informaçom biográfica compartilhada. Há pessoas dos dous lados da linha. Porquê nom? (more…)

22 de Outubro de 2006, Domingo

Domingo, 22 de Outubro, 2006
Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

A espontaneidade dos políticos por vezes exprime-se com maior eloquência do que os seus informes. Parece ser que os leoneses denunciárom o uso do mapa da Galiza editado por NÓS-UP, que compreende os territórios orientais até o Návia, o Berzo e Seabra, nalgumhas escolas. A conselheira de educaçom do bipartito, solidária com os leoneses e escandalizada polos factos, tranquilizou-nos afiançando-lhes que se investigará o caso e se retirará o mapa, que obviamente é “ilegal”. Esta mania de declarar foragidas todas aquelas cousas contrárias ás próprias opinions, a sério, tinha que chegar até aqui? É tremendo que Espanha ilegalize partidos políticos, associaçons juvenis, centros sociais, até periódicos. Mas… um mapa? Como se lhe ocorre a alguém ilegalizar um mapa? Estará pensando esta “socialista” numha Lei de Mapas a semelhança da Lei de Partidos Políticos? E sendo assim, que supostos de ilegalizaçom lhe passarám pola cabeça? Já o estou vendo: “ilegalizado o mapa integral da Galiza por nom condenar o terrorismo”. Ouça, senhor juiz, que eu sou só um mapa. “Já mas, condena o terrorismo ou nom?” Porquê pensarám que têm que meter mão em todo o que faça a gente? No seu afám regulamentarista, no seu intento de submeter toda a vida social ao controlo de ordenanças, leis orgânicas, regulamentos e directivas, ao final acabam crendo-se com compentências sobre cada cousa que a sociedade faz por livre, mesmo as mais inócuas e inofensivas, mesmo caindo no ridículo. Assim que o nosso mapa é ilegal, manda caralho. Pois que o metam preso também, como aquela história do sargento que castigou umha cadeira com duas noites de arresto. Que país!

15 de Outubro de 2006, Domingo

Domingo, 15 de Outubro, 2006

Ugio Caamanho

Ugio Caamanho

Som trapaceiros os dilemas desse género, tam caros polos entusiastas deste modo de vida rapaz, insensato e suicida. Dizem: “as crescentes necessidades energéticas há que satisfazê-las bem com combustíveis fósseis, bem com energia nuclear”. Ou: ” o crescimento urbano pode-se conduzir horizontal ou verticalmente”. Ou: ” a crescente necessidade de transporte cumpre solucioná-la por meio do carro privado ou do comboio”. E porquê? Porquê tem que incrementar-se o consumo de energia? Porquê têm de estender-se as nossas cidades se nom aumenta a nossa populaçom? Porquê urbanizar e viver de maneira que tenhamos que gastar cada vez mais tempo em deslocamento? Nestes termos os dilemas ou nom têm soluçom ou têm efectivamente a que convêm aos poderosos. Entre o gaseamento por CO2 do petróleo e o carvom e os resíduos radioactivos do urânio talvez compense o segundo. Se em Vigo nom houver habitaçom para todos os vigueses, quiçá o melhor seria construir para o céu em lugar de invadir a periferia, como bem dizem o BNG e o PP. Mas nom se justifica esta aceitaçom acrítica dumhas premissas que nos condenam à racionalidade estúpida e alienante do “progresso”.