
Sábado, 15 de Junho de 2008
Puerto I tem muitas singularidades a respeito do resto de prisons de Espanha. A maioria, más, nom em vao é o penal mais temido por qualquer preso. A comida, por exemplo, é a pior de quantas conhecim por aí adiante, e conhecim comidas más de verdade. Esta é má com avarícia. Contam que nem sempre foi assim: tempos atrás Puerto I tinha cozinha própria onde trabalhavam presos desta prisom, e os que o conhecêrom afiançam que se comia melhor que nengures; um dia, porém, umha das facas foi empregue por um par de presos para degolar outro –e depois passeárom polo pátio com a cabeça na mao- e a direcçom fechou a cozinha. Trancorrêrom cerca de vinte anos, e desde entom comemos o que nos enviam da prisom de Puerto II, que está justo ao lado de Puerto I. Nom sabemos se em Puerto II, que é de segundo grau, comem o mesmo que nos enviam, supomos que sim. Ao menos, digo eu que o comerám quente.
Como em toda a parte, dam-nos dous pratos e sobremesa. “Pratos”, logicamente, é umha forma de falar, porque nas prisons come-se em bandejas e com talheres de plástico. O primeiro prato pode ser sopa de batatas –só de batatas-, favas cruas, lentilhas –o prato mais saboroso da semana- ou, como hoje, aros de lulas fritas. O segundo massa fria, um bife anao sem mais companhia que o pam, “pescaíto frito” ou umhas fatias dum embutido apestoso que nom deve ter nem nome, sucedáneo dum sucedáneo da mortadela. De sobremesa, fruta ou lácteos. A maioria dos dias a malta fica com fome, e isso faz-se duro especialmente às noites dado que jantamos às sete e meia, muitas horas antes de deitarmo-nos. Quem tem dinheiro, que somos algo menos da metade dos oitenta presos do módulo, janta por segunda vez na cela: com o pao de jantar e umha lata de atum, engana-se o estómago até a manhá seguinte. Talvez como compensaçom, o demandadeiro funciona melhor que em nengumha das prisons polas que passei. Umha vez por semana pode-se comprar fruta e verdura, bastantes produtos de supermercado, ervas e espécies, inclusive doces como chocolates e gelatinas. Os políticos aproveitamos isto a fundo, e assim completamos a dieta com pratos colectivos, alguns até mui refinados. Saladas, ovos recheios, cuscus, vários tipos de molhos, tortas caseiras... andamos mesmo a experimentar com gelados, agora que chega o calor. Baixamos os ingredientes, colocamo-nos arredor de um par de mesas e pomo-nos a cozinhar com as poucas e rudimentares ferramentas de que dispomos; enchemos uns poucos pratos –estes sim, embora de plástico- com o resultado e com embutidos e conservas do economato, e aí celebramos as nossas comilonas, mais e melhor surtidas quando coincidem aniversários. O dia em que um saia livre, que toca a começos do ano que vem, o banquete promete ser pantagruélico. A confrontar umha cousa com outra, a péssima dieta carcerária com a possibilidade de comprar por demandadeiro, o balanço sai positivo para os que cobramos pecúlio. Os que nom, os chamados “indigentes”, passam-nas putas em Puerto I, também por causa da comida. Quando pensam em ir-se embora a outra prisom, pensam nas condiçons de vida, na agressividade dos macacos, na hipótese de permissons e terceiros graus, na distáncia das famílias... mas recordam especialmente a comida. 7 de Junho de 2008
Sabado, Junho de 2008. A noite caiu há umha hora, os presos levamos fechados nas celas desde as oito da tarde. Se aparto a vista da mesa...
“O urbanismo é a realizaçom moderna da tarefa ininterrompida que salvaguarda o poder de classe: o mantenemento da atomizaçom d@s trabalhadoras que as condiçons urbanas de producçom tinham reagrupado perigosamente. A luita constante que deveu ...” ... os meus olhos dam no pátio, umha escuridade atravessada por focos amarelos coma rodeada polos quatro lados polas paredes das celas com a que abrem as suas janelas ao espaço comum como a um pátio interior. Em cada cela um só preso, e distingo ... “... soster-se contra todos os aspectos desta possibilidade de se reunirem encontra no urbanismo o seu campo privilegiado. O esforço de todos os poderes estabelecidos desde a Revoluçom Francesa para acrescentar os meios de manter a ordem na rua culminará enfim na supressom da rua. ‘Com os meios de comunicaçom de massas que eliminam as grandes distáncias o isolamento da populaçom demonstrou ser um modo de controlo muito mais eficaz’, constata Lewis Munford, em A cidade através da história. Mas o movimento geral do isolamento que é ...”. ... na galeria de enfrente as actividades a que se dedica cada um: os bascos, como eu tenhem o flexo acceso e inclinam-se sobre as mesas, dous ou três comuns dormem já, o resto deixam ver o resplandor intermitente dos televisores. De tanto em tanto dous ou três presos conversam de janela a janela. Estam ponhendo Titanic na Segunda, diz um. Na segunda, pergunta o outro. Na segunda de Andaluzia. Um terceiro intervém pedindo um cabo ... “... o urbanismo deve também conter umha reintegraçom controlada dos trabalhadores e trabahadoras segundo as necessidades planificáveis da produçom e o consumo. A integraçom no sistema deve recuperar os indivíduos entanto que indivíduos isolados em conjunto: tanto as fábricas ...”. ... de antena para o seu televisor, alguém que tem um a mais fai-lho chegar passando-o de mao em mao, janela a janela. Dam as onze da noite, os macacos apagam-nos as luzes das celas e as conversas de pátio esmorecem. Ergo-me, debruço-me á janela: como ficou silencioso o módulo a estas horas. Escuitam-se só levemente algúns televisores com o volume mais alto e, de vez em quando, o ruido do walki-talki do sentinela na garita. Com tanto sossego e tanta escuridade, se nom fosse polos ... “... quanto as casas de cultura, as vilas de veraneio quanto as “grandes urbanizaçons”, estám especialmente organizados para os fins desta pseudo-colectividade que acompanha também o individuo isolado na célula familiar: o emprego generalizado de receptores da mensagem espectacular faz com que o seu isolamento se encontre povoado de imagens dominantes, imagens que somente por este isolamento adquirem o seu pleno poder”. ... focos que nos apontam para nos delatar se tentamos evadir-nos, descobririamos que nos cobre um céu empedrado de estrelas. Mas no cárcere nunca se vem as estrelas, nom sabiades isso? Só com esforço se consegue localizar Vénus, se tanto ou algum outro astro especialmente luminoso. Parece-vos que estou construindo umha metáfora carcerária para a vida em geral? Nom sei, vós veredes a que vos soa todo isto. Eu afianço-vos que a descriçom é realista, e se encaixa com os raciocínios intercalados daquele francês, pois ... pior para tod@s. Ora, há que lembrar-se bem da sua advertência, que é também umha professom de fé na espécie humana “imagens que somente por este isolamento adquirem o seu pleno poder”. Amanhá será outro dia. Quiça com algo de imaginaçom, localice a estrela polar. 25 de Maio de 2008
(…) Cada um que leve o caldeiro como queira, isso por descontado. Porém, há umha verdade paradoxal mas mui evidente em que vale a pena reparar: o aborrecimento nom é umha doença que cure o entretenimento, ao contrário, é causado precisamente por ele. Umha vinheta de El Roto questionava: se vivemos na sociedade do espectáculo … porque é todo tam aborrecido? Estou por dizer que o sentimento do tédio tem umha vida tam curta quanto a sociedade do entretenimento e nom creio exagerar. Quando vivemos pendentes de construir a nossa conciênciacom as mercadorias audiovisuais que oferta o mercado conseguimos anular o fluxo discursivo interno- aquilo qe merece realmente o nome de conciência e noutra época se chamou alma ou espírito, substituíndo-o pola espectaçom. Mas a mercadoria, todas as mercadorias e também as audiovisuais , som decepcionantes por natureza: sedutoras e decepcionantes enfim, e assim ad nauseam, ou até o vómito. Isto é, até o aborrecimento. Este mecanismo trabalha igual com o consumo televisivo do que com a compra da roupa, o turismo ou as relaçons pessoais-se fôrom mercantilizadas, como é norma hoje-. Pois bem, quando o consumidor –espectador nom encontra mercadorias suficientemente atraíntes, e portanto se abre um baleiro na sua consciência, em lugar de vir à tona umha forma de consciência autónoma o que surge é o aborrecimento. O vazio espiritual do espectador sem espectáculo, por assi dizer. A televisom, a rádio, até a música- esses iPods incrustados nas orelhas todo o santo dia-, em peral. Entertainment, som a causa básica do aborrecimento, noma sua soluçom. Já nos alertavam no Maio francês: “ Companheiros! Aborrecer-se é contrarrevolucionário! (…)
(…) Um socialista inglês do século XIX comentava o costume macizamente difundido de ler a imprensa diária: “algumhas pessoas consideram este hábito de consumo de jornais o primeiro passo para a educaçom. Bem! O segundo passo será, digo eu, o fim deste hábito” Cada vez covenço-me mais do carácter tóxico desta adicçom moderna e da necessidade de nos substraermos dela para preservar umha visom sosega, crítica e cabal do País e do mundo. Nem só porque as notícias nos vêm mediadas em quase todos os casos polo inimigo: especialmente porque o su formato converte a realidade e a história numha sucessom de “notícias”, que é o nome que adoptam aquelas partes do real ao serem assumidas e metabolizadas polo espectáculo. Umha notícia nom é simplesmente um fragmento de informaçom: é umha mercadoria, e a atitude do lector, ouvinte ou televidente perante ela é umha transposiçom da atitude do consumidor perante qualquer mercadoria , com os seus mesmos vícios e tristezas: a ansiedade por adquiri-las, a insatiscacçom posterior, a exigência de novidades que apaguem o fastio sempre renovado, e também o alheamento perante algo que nos é oferecido já completo, sem margen para a nossa participaçom. Assistir assim ao curso da História é tam pernicioso como ficar enganchado ao consumo diário de um tóxico, e nom temos porque resignar-nos a tal cousa. Da mesma maneira que nos convén, por dignidade e por cordura, evitar o consumo compulsivo de fundos de ecrá para o telemóvel, haveria que apartar-se todo o possível do fluxo de notícias. Nom, lógicamente, da informaçom: há que saber em que País se vive. Mas já se dixo que “informaçom” e “notícia” som cousas mui distintas. 3 de Maio
Palavras dum socialista inglês do século XIX:
(...) É nesse sentido que eu me declaro inimigo da civilizaçom; nom, umha vez, que isto é umha confissom, eu tenho que reconhecer que a minha motivaçom especial como Socialista é o ódio à civilizaçom. O meu ideal de umha nova Sociedade nom seria concretizado a nom ser que essa Sociedade destruísse a civilizaçom, (...). Portanto, o meu ideal de Sociedade do futuro é, em primeiro lugar, a liberdade e o exercício da vontade individual, que a civilizaçom ignora ou cuja existência chega a negar; a libertaçom da dependência servil, nom de outros homens e mulheres, mas antes de sistemas artifiviais criados para poupar aos homens trabalho vigoroso e responsabilidade ; e para que esta vontade seja forte em nós, eu reclamo primeiro que todo umha vida animal livre e sem constrangimentos: reclamo a absoluta extinçom do ascetismo. Se sentimos umha véstia de degradaçom que seja quando experimentamos amor, ou alegria, ou fome, ou sede revelamo-nos maus animais, e portanto homens e mulheres infelizes. E vós sabedes que a civilizaçom nos leva efectivamente a sentir embaraço relativamente a todos estes sentimentos e actos; e que, tanto quanto pode, nos pede para os camuflar-nos, encorajando-nos, se possível, a pedir a outr@s que os façam por nós. Parece-me, de facto, que a civilizaçom pode quase ser definida como um sistema organizado para asegurar o exercício delegado das energias humanas em favor de umha minoria de privilegiad@s. Todavia, a par com esta exigeência da extinçom do ascetismo vem umha outra exigência: a extinçom do luxo. Parece-vos um apradoxo? Nom devia parecer. O que é que causou este luxo senom umha insatifacçom doentia relativamente às alegrias simples da maravilhosa Terra? O que é isto senom umha distoçom da beleza natural das cousas. Transformada numha perversa fealdade para satisfacçom do apetite já saciado de um homem que esta a deixa de ser homem – um homem que nom trabalha, e nom pode descansar? Queredes que vos diga o que causou o luxo na Europa moderna? Cobriu os alegres e verdes campos com casebres e escrav@s, exterminou as flores e árvores com gases venenosos e transformou os rios em esgotos, ao ponto de, em grandes extensons da Gram-Bretanha, o povo ter esquezido o aspecto dum campoou de umha flor; a sua ideia de beleza é agora um palácio de gin empestado polo cheiro a gas, ou teatro vulgar e espalhafatoso. (...) E todo isto para quê? Para se pintarem bons quadros, para se contruirem belos edifícios, para se escreverem bons poemas? Qual quê! Isso é um produto de outras eras, anteriores ao luxo e a civilizaçom. O luxo prefere clubes em Pall Mall, estofados como se se destinassem a delicadas senhoras inválidas, mas onde volumosos homens de suíças se recostam num ambiente tam absurdamente efeminado que até os lacaios de calçons de pelúcia que os servem som melhores homens do que eles (sic). E nom preciso de ir mais longe: um clube fastuoso é o exemplo acabado do luxo. Como vedes, eu insisto na qüestom do luxo – que é efectivamente, o inimigo assumido do prazer – porque nom quero que, nem mesmo temporariamente, @s trabalhadores/as vejam algo desejável nom clube elegante (...). Chamava-se William Morris. 3 de Maio de 2008
Escoitei que há por aí quem qualifica as nossas ideias de “post-marxismo anarquizante”. Esta mui bem! Já sei que vai com bastante cachondeio, mas a quem se lhe ocorresse a expressom há que dizer-lhe:”Bem feito algo já vas entendendo!” Algo, eh. Um pouco. Umha porçom mais bem pequena, mas já é algumha cousa.
A quem se lhe caem os aneis por ficar à margem da ortodoxia marxista? Nem por isso nem por buscar e encontrar teses úteis noutras escolas de pensamento, entre elas as anarquistas. E há que acrescentar que, umha vez privad@s das virtudes místicas daquela “ciência marxista-leninista”, postos a fuchicar entre as opinions e propostas mais prosaicas, a verdade é que encontramos mais ferramentas acaídas à nossa luita em editoriais libertárias do que no refritos de pratos velhos que se consumem nos templos da pureza ideológica. É isto um sacrilégio? Bem nós também nom professamos nengumha fé por esta religiom. Ora, a questom nom é tam singela. Se um ou umha quer justificar ou recusar umha etiqueta nom chega com apelar ao seu índice de leituras, nem às palavras mais empregadas no seu discurso, ao menos se um ou umha leva a sério as etiquetas, e nom vejo porque nom vamos fazê-lo. Nom me refiro à de post-marxistas anarquizantes, que é brincadeira, mas à de verdade, à que resume a possiçom política e teórica do independentismo a que eu pertenço. Qual é? Marxistas? Anarquistas? Autónomos? Situacionistas, libertári@s, comunitaristas? Como digo, nom refugimos as contribuiçons de nengumha escola, e de todas elas aprendemos algo. Mas a qual pertencemos? Toda a nossa vida, e nom apenas a dimensom política, vem marcada por duas pulsons incontroláveis que nos brotam das entranhas. A primeira é ódio à sociedade de comerciantes e carceréiros que o estado espanhol leva séculos impondo na Galiza; o ódio a sua mercantilizaçom da Terra e das pessoas, ao seu individualismo feroz que arruína todos os laços comunitários, à sua ética do sucesso económico e vantagismo a ultrança, à sua destruiçom do nosso território, à sua urbanizaçom do campo e a costa e às suas cidades horrendas e inabitáveis, aos seus ídolos laicos em forma de bugigangas tecnológicas e de marketing, à sua política falsificada, ao seu Estado omnipresente que se impom com pistoleiros, torturadores, exércitos e prisons, ao seu sistema económico que nos obriga a entregar a nossa vida para produzir mercadorias supérfluas ou até nocivas embrutecendo-nos ao mesmo tempo, à sua aculturizaçom e ao seu idioma dominante, ao seu lezer manufacturado pronto para consumir e aos seus subornos de dinheiro para comprar o lixo que oferece, poder para dominar aos vizinhos e vizinhas e fama para inflar os egos danados por tanta insensatez. A segunda é o amor ao nosso Povo, nom apenas aos galegos e galegas de hoje, também nom exclusivamente às devanceiras e descendentes; também e especialmente, as maneiras como este povo, quer dizer nós, nos arranjamos para lidar com as asperezas da vida, da natureza e do poder estabelecido, à relaçom que conseqüentemente estabelecemos com a Terra e entre nós, às fórmulas de resistência que ensaiamos no passado e no presente, às margens de poder autónomo que constituimos e defendemos, aos sonhos e palavras que esse conflito vai generando, enraizadas nas etapas prévias e vivíssimas nas brigas actuais, aos modelos de organizaçom económica, política e social, semelhantes no seu colectivismo e igualitarismo ao do resto dos povos dominados do mundo, que por meio de nós existirom, existem e existirám apesar dos esporços de Espanha. É precisa umha etiqueta para nos resumir? Nesse caso, podemos reconhecer que somos, na plenitude do sentido... nacionalistas. Depois de tantas excursons polo exotismo universalista, @s galeg@s, como tantas vezes, a cumprir o trajecto arredor de si. 29 de Abril de 2008
As brigas som as segundas, mas também podem cair em domingo. Isto é assim porque os cartons de débito com que se fam as compras carregam-se as terças, de maneira que domingo e segunda a malta está sem um peso, sem tabaco e sem hipótese de comprar drogas. O ambiente vai-se electrificando até que condensa num ou dous enfrentamentos, e depois sossega até a terça, em que nom costuma haver liortas.
Em Puerto I as cousas funcionam doutra maneira do que nas prisons anteriores em que estivem, porque isto é primeiro grau e o tipo de presos que se encontra é diferente. Para que che apliquem primeiro grau tes que ter-te metido nalgum lio gordo antes, e mais ou menos a distribuiçom é equitativa entre os que brigárom com outro preso e os que brigárom com um carcereiro. Há bastantes neste último grupo, curiosamente. Do primeiro grupo há que dizer que umha simples liorta entre dous presos nom conduz ao primeiro grau: é preciso que seja mesmo grave, com uso de pinchos e risco de morte. Entom, o grosso dos meus companheiros de pátio estám aqui por terem surrado duramente alguém, preso ou carcereiro. O resto som políticos, que caem aqui porque sim, como lhe passa à Giana, ou fuguistas, que também há alguns. Portanto, os enfrentamentos neste pátio som diferentes aos de Cáceres, por exemplo: som mais comuns e mais violentos. Assim e todo as brigas estám bastante reguladas por leis nom escritas, nom pensedes que isto é a selva. Vejamos. As brigas som lícitas. Se dous querem resolver um problema a castanhaços, nengum preso se interporá, embora poda convencer um deles de que desista. As brigas só competem aos presos. Os carcereiros nom podem ser chamados em nengum caso, por nengum preso. Daí que se realizem na casa de banho, que é o único espaço fora da visom da garita, até o ponto de que a expressom de desafio, como a bofetada com a luva doutra época, é “Tira pa’l tigre”; tigre é a casa da banho, claro. Mais se há feridos, pode-se acudir à enfermaria mas nom reconhecer ter-se pelejado, e muito menos contra quem. Se ficárom assuntos pendentes arranjarám-se sem a participaçom de funcionários. Mais: o resto dos presos que nom brigam devem comportar-se de maneira que nom se levantem suspeitas entre os carcereiros do que está a acontecer no tigre, assim que nada de corros nem mirons, ao revés, há que continuar fazendo o que se fazia com toda naturalidade. Há mais regras, mas nom som tam estritas, e dependem do caso. Nom atacar vários contra um, deter-se logo que o outro caia, etc. Por exemplo, há uns meses vários presos preparárom umha cilada contra um violador, que saiu rebentado do módulo e nom voltou a aparecer por aqui. A princípios deste mês de Março deixárom torto a um bom rapaz porque lhe chantárom o pincho no olho em lugar de dirigi-lo ao pescoço ou ao tórax, como é normal. As brigas desencadeiam-se quase sempre por dinheiro ou por drogas, directa ou indirectamente. Entom, os políticos nunca brigamos? Pois nom exactamente. Às vezes sim nos vemos envoltos e nom é o primeiro que acaba no tigre resolvendo problemas. Eu nom me vim na situaçom nem vim nengum basco, mas várias vezes estivemos perto e parece ser que Sánti e José Manuel sim chegárom a esse ponto em Meco. 26 da Abril de 2008
Entre os presos a relaçom é cordial, mas nom há irmandade. Diz-se que noutro tempo era doutra maneira, que se compartilhavam as causas e se defendiam uns aos outros. Pode que seja saudade dos tempos idos, ou pode ser que os ventos soplam para o individualismo em toda parte. Nom sei antes, mas agora se os carcereiros saíssem um dia se pugessem a maltratar um preso, ninguém sairia na sua defesa. Falo dos presos sociais, naturalmente.
De todas as maneiras a relaçom é cordial e isso agradece-se, cria um ambiente relaxado onde se pode estar à vontade, longe da ideia habitual de tantos filmes: nom se vive com tensom, nom se respira violência e medo. O que mais chama a atençom é a mistura de raças e religions, que nom formam grupos compactos e muito menos bandas, ao revés, se olhas para o pátio vés aqui, um árabe, um brasileiro, um espanhol e um gitano a jogar o parchis, mais lá um preto a passear com um romeno e dando voltas em círculo, um basco corre parelho a um lituano. Depois a malta agrega-se por identidades, mas só para ocupar umha mesa ou um canto do módulo, para terem, por assim dizer, umha base. E está o canto dos mussulmanos, o dos bascos, o dos canários e o dos gitanos, cada um com a sua zona de pátio, as suas mesas e as cadeiras com umha marca para reconhecé-las. Cada um tem a sua base, mas nom passa muito tempo nela. Entre os grupos que encontras rindo, compartindo umhas cervejas sem álcool ou jogando a cartas, xadrez, parchis ou dominó, o mais normal é distinguir várias nacionalidades. Inclusive quando há brigas, tam comuns, é sempre assunto individual, nom racial. Polo mesmo motivo, nom existem os “chefes” ou, como se lhes chamava quando sim havia, “kies”. Parece mentira até donde chega esta cordialidade, estes bons modos dos presos. Por exemplo, cá neste módulo há vários islamitas de Marrocos, Síria, Paquistám e amazigs. Alguns estám condenados ou acusados por participar no 11 de Setembro, outros por enviar ajuda a um grupo curdo de resistência iraquiana, ... Neste mesmo módulo há um inglês jovenzinho que conta com sair logo do cárcere, e pretende alistar-se no exército británico para ir voluntário ao Afeganistám, porque afirma que do que ele goste é de guerra. Pronto, pois este inglês, que é um gajo simpatiquíssimo e de trato amável, leva-se estupendamente com os islamitas e cada dia joga xadrez com o paquistanês. Nom é impossível que de aqui a dez anos se encontrem em Tora Bora e tentem desmembrar-se mutuamente, mas de momento estam presos em Puerto I e portam-se como bons companheiros. Eu conhecim um ex-militar británico que figera trabalhos nom mui claros em Irlanda do Norte, e passei bons momentos brincando com ele. Sei duns bascos que nom se levavam mal com um fascista italiano e com um picoleto arrestado por atracar bancos. Nom proponho todo isto como modelo de nada, olho. A prisom tem umhas regras e vale a pena segui-las se um quer poupar problemas desnecessários. Esta cortesia é um pouco chocante para todos, suponho que para quem nom se faz umha ideia de como se convive nos cárceres deve ser mais contraditória ainda, e a verdade é que nem sequera me proponho defendê-la ou justificá-la. Mas neste blogue às vezes descrevo como se vive cá dentro, e nom quero passar por alto as contradiçons. E as relaçons com os carcereiros? Nas prisons de segundo grau, especialmente nos módulos de preventivos, a hipocrisia também trabalha e mantem-se certo colegueio superficial e abertamente servil, chama-se-lhes de “Dom” e rim-se as suas graças. Isto claro, os presos sociais. O tratamento é sempre de você, em geral nos dous sentidos. De todas as maneiras o contacto é escasso, cada bando tem os seus espaços e só coincidem em momentos concretos. Cá em Puerto, como somos presos conflitivos, nom há colegueio que valha. Se nos encontramos num corredor, ora nos ignoramos atravesando-nos com a olhada como se fôssemos invissíveis, ora cruzamos umha fria olhada de ódio. 19 de Abril de 2008
Contra o que parecem crer os nossos inimigos e também @s amig@s que nom compreendem movimentos como o nosso, o nacionalismo nom se propom restituir nengum paraiso perdido séculos atrás. Nom conheço nengum/ha galega que aspire a impor os foros, por exemplo, ou o poder feudal da igreja, ou as levas militares. Mas o mundo anterior ao capitalismo ficou sumido nas tebras pola ideologia oficial deste, como se todo fosse barbárie e obscuridade, mentres a modernidade polo contrário, tem que ser encomiada como a época das luzes, da liberdade e do benestar. Pois, bem, da mesma maneira que o presente merece críticos mais severos, o nosso passado deve ser julgado com mais justiça. Só assim, a contra –luz, se distingue o sensentido da vida que levamos e a possibilidade doutros mundos. Como digo, é um exercício de contraste, nom umha proposta de restauraçom do feudalismo.
Agora, dirá-se, vivemos com mais comodidade. Talvez, mas há que explicar qual ideia de confort anima a sensaçom de que estar apinhad@s em pisos minúsculos dentro de blocos de prédios horríveis, passar horas encerrad@s em cápsulas motorizadas ruidossísimas e trabalhar em ambientes perigosos e aborrecidos, etc., é preferível a viver numha aldeia seguindo as lavouras conforme as estaçons. Objectará-se que vivemos mais tempo e com melhor saúde. É certo que morrem menos mulheres de parto, mas muitas mais em accidentes de tránsito, por exemplo. Todos os descobrimentos de medicina nom evitárom que doenças derivadas do modo de viva que levamos afectem a prática totalidade d@s galeg@s:nom só pola recem criada necessidade de transporte e as suas consequências (accidentes, poluiçom, etc.), também polos ofícios arriscados ou mecánicos (doenças laborais, atrofias, estres, etc.), polo sedentarismo (obesidade, doenças coronárias, etc.) e até poa pura insensatez desta forma de vida (a primeira causa de visitas médicas é a depressom). Somos capaces de combater com penicilina as doenças d@s noss@s devencer@s; lástima que o custo fosse pôr em circulaçom mil causas novas de enfermidade e padecimentos. Dispomos, ainda assim, de mais e melhor comida, para nós acabou a fame. Que comemos mais nom o vou negar, e eis os dados que assinalam a obesidade como a principal ameaça à saúde pública do nosso País. Que nos alimentamos melhor é outra cousa vistos os hábitos culinários actuais, baseados nos produtos pre-cozinhados, na comida rápida e na indústria agroalimentar. Se hoje já nom pode um saber o que é que está a ingerir em lugar leite, tomates ou frango, do que pode estar certo, é de que foi adulterado genetica, biológica ou quimicamente nalgum momento do pro cesso de produçom. Ora, nom se nom se negará que na actualidade sabemos ler e escrever, e temos acesso à cultura. Sabemos ler e escrever, o que nom signifique que a maioria de nós leamos nem escrevamos, oferece-se-nos grandes obras de arte – esculturas, pinturas, romances, músicas,... – que alguns freqüêntam e talvez saibam apreciar. Porém a quota de ineptitude que adquiriu a nossa geraçom nos trabalhos manuais mais singelos, em qualquer tipo de expressom artítica, ou verval, inclusive a diminuiçom drástica do número de palavras que utiliçamos a diário, situam-nos sem dúvida como a mais inculta e torpe da história. Contar um conto, entoar umha cantiga, modelar qualquer figura com barro ou madeira, eram formas de expressom e criaçom ao alcanço de qualquer menin@, mentres hoje apenas uns poucos especialistas som capazes outenhem a vontade de imitá-los, no mais dos casos com magros resultados (mas isto é apenas a minha opiniom). Ah, mas entom nom havia liberdade. Levo toda a vida perguntando-me 23 DE FEVEREIRO DE 2008
Nunca tal se vira na Galiza. Até agora o fascismo funcionava como um ruido xordo e constante, institucionalmente, sem estridências. Todos sabiamos que estava aí, identificamos os seus líderes, conhecemos os seus locais de encontro, os seus costumes, e via de regra preferem nom interferir connosco: podendo dominar com comodidade, para que íam buscar o conflito? Nada mais eficiente que a violência administrativa, isso é.
E pronto, algum caso já víramos deste género. Nos anos 90, os resíduos do partido que sementou de galegos as valetas trazia um autocarro de Madrid cada 25 de Julho, e concentravam-se na praça santiaguesa de Maçarelos em honor ao patrom de Espanha. Creio que era o único acto fascista nas nossas ruas em todo o ano, e já era avondo. Aqueles eram um assunto mui particular, porque eram espanhóis espanhóis e militavam na Falange. Os fascistas galegos (espanhóis) olhavam para eles com estranheza e talvez paternalismo, da sua confortável posiçom no Partido Popular, amo e senhor destas terras. Nom se faziam notar. As ruas construiam-nas eles, com os seus planos urbanísticos e as suas empresas, mas habitávamo-las nós e isso nom parecia importar-lhes, ocupados como estavam em fazer caixa e contar votos. Isto está a mudar nos últimos anos. Vimo-lo esta semana com as mobilizaçons contra a lingua em Vigo e na Corunha, também na decana da que foi a minha faculdade, que correu á polícia para delatar uns alunos que protestaram contra umha conferência dumha fascista (ilegalizadora de partidos, perseguidora de jornais, apoio dos torturadores,...) na Universidade. Já o víramos antes, com grupos que secundavam as convocatórias da AVT contra a soluçom política do conflito basco, contra o direito dos homossexuais ao matrimónio, etc. O que acontece para que saiam dos seus tovos? Primeiro, que perdêrom umha parte do poder com a vitória magra mas suficiente do bipartito, há quase très anos. A “maioria silenciosa” dá resultado a quem governa, na oposiçom há que armar barulho (E todas as liçons de convivência e a tolerância quen vos davam antes?) Segundo, que as ruas estavam baleiras. Polo mesmo argumento o Bloco, núcleo do sector social maioritário nas mobilizaçons, substituíu a acçom da rua pola ordenança e o decreto, facilitando aos fascistas aceder sem muitos entraves ao espaço público por excelência. Terceiro, a cadeia COPE. Talvez seja cousa minha, que ao viver longe do País sobrevaloro o que me chega aos ouvidos, isto é, as emissoras espanholas. E reconheço –vícios piores há- que de vez em quando sintonizo Jiménez Losantos e César Vidal, que alimentam contra o nosso povo e a nossa língua um ódio desmedido, fanático. E já sabemos de que som capazes estes dous, que com Pedro J. Ramírez estám detrás de quase todas as manifestaçons fascistas destes últimos quatro anos. Nom sei, a verdade, a que vem todo isto. Mas si sei a onde vai, de nom lhe pormos remédio: noutras partes do Estado com a direita assentada firmemente nas ruas, como o País Valenciano ou Madrid, os nacionalistas e a gente de esquerda vai com medo por alguns bairros, tem que dissimular as suas ideias, aprender a defender-se. Desde 1992 os fascistas matárom umha dezena de pessoas e nom há nem conta do número de malheiras e ataques de todo tipo sofridos. Até o de agora nós lidáramos bem com os descerebrados de partidos á margem do PP. Sabotárom-nos algum centro social, agredírom algum activista, mas as ruas eram nossas e eram eles que se escondiam. Agora toca lidar com o fascismo maioritário, que é o do PP. A ver que fazemos. (A propósito, AMI rebentou o acto da Falange em Maçarelos repetidamente, a pedrada limpa. E deixárom de vir) 16 de Fevereiro de 2008
Acontece constantemente. Dos polvorins sai um veículo que transporta os explosivos custodiado por pessoas armadas. Dirigem-se ao lugar indicado, descargam o material e entregam-no aos artificieiros que, seguindo os planos do arquitecto, distribuem-no nos pilares oportunos. Unem as cargas com cordom detonante e o detonador aos cabos eléctricos, que tendem até umha posiçom afastada do edifício. Três, dous, um, premem o botom de contacto e o prédio desmoroa-se, com umha explosom fortíssima que arroja escombros e levanta umha poeira muitos metros ao redor. Ponto final: cumpriu-se a decisom do promotor, que quer construir um hotel de cinco estrelas nesse solar, ou da Administraçom, que considera ilegal a construçom e botou-na abaixo contra a vontade do dono. Os artificieiros arrumam o seu material de trabalho e voltar a casa, amanhám é outro dia e tocará furar umha montanha para fazer passar o AVE, a desescamar um pouco mais umha canteira de granito.
Acontece raras vezes. Dalgum lugar desconhecido sai um carro que transporta explosivos, sem custódia policial. Dirige-se ao lugar indicado, descargam o material já pronto para o seu funcionamento, colocam-no onde calculam que pode cumprir melhor a sua funçom e activam o temporizador. Três, dous, um, o circuito fai contacto e o prédio desmoroa-se ou simplesmente sofre danos, com umha explosom fortísima que arroja escombros e levanta umha poeira muitos metros ao redor. Ponto final: cumpriu-se a decisom de quem executou a acçom, que já vai caminho da sua morada a dormir, amanhám é outro dia e há que trabalhar, estudar ou fazer o que seja. Os protagonistas destes factos que ocorrem constantemente ou raras vezes tenhem motivaçons muito distintas, por exemplo os artificieiros e os picoletos agem com a confessada intençom de ganhar dinheiro. Ponhem as bombas para pagar a hipoteca ou as férias na Tanganica, por exemplo; empregam-se como pistoleiros para poder comer todos os dias, ou para comprar aos filhos roupa de marca. Vale. O promotor também, só que com a veracidade de quem nom vive dum salário fixo e ganha mais quanta mais terra mova, quanto mais tijolo levante. Os políticos, á sua vez, fam contas do rendimento eleitoral da condescendência ou alternativamente da dureza do que diz respeito á destruiçom do território, e sob certas circunstáncias entendem conveniente para conservar o seu posto: ordenar a demoliçom desta urbanizaçom ou entom fazer perforar aquela serra. O combatente ilegal segue também umha motivaçom que é a de deter a destruiçom da sua Terra, que lhe dói como se fosse umha parte do corpo e nom está disposto a sofrer sem se remexer. As motivaçons som diferentes, e como é evidente, também divergem as conseqüências políticas, as jurídicas, certo tipo de detalhes técnicos, etc. Nada mais longe da minha intençom que equiparar uns factos com outros, bem me dou conta de que sob muitas perspectivas som literalmente antagónicas e, em todo caso, há muita margem para a discussom. Pode-se debater sobrea conveniência para o País e para o nacionalismo de praticar as demoliçons irregulares, pode-se duvidar da sua efectividade real, interpretá-las em termos culturais e antropológicos...o que se queira. Ora bem, o que nom se pode dizer é que sejam imorais. Quando os diários e os políticos falam em termos de “selvajadas”, “acçom violenta”, “ofensa intolerável”, etc, soslaiam o facto de que a sabotagem, em termos físicos, materiais, nom se distingue nadinha dumha demoliçom legal, se nom é em que estas empregam mais explosivos, mais armas, e causam muitos mais destroços. Qual é a parte “bárbara” dum edifício que se vem abaixo fruto dumha detonaçom? A existência ou nom dumha licença municipal pode torná-la legal ou ilegal, mas nom altera a sua natureza física em absoluto. E diz o BNG: ”a violência repugnea á conciência pacifista e democrática do povo galego”. O acto físico da demoliçom da demoliçom de edifícios repugna á “conciência pacifista e democrática” do nosso povo? O acto físico “violento” da detonaçom dum explosivo “repugna”, com independência de onde se produzir –por exemplo numha mina ou nas obras do AVE que o Bloco alenta-, ou repugna unicamente se nom o pratica o Estado Espanhol? Que classe de “pacifismo e democrácia” tenhem na cabeça os nossos amigos bloqueiros? Crerám que cravar um prego a umha tabela será também um acto de violència repugnante, com os seus martelaços inclementes? PAM! PAM! PAM!... Certamente cravar um prego é umha brutalidade: condenémo-lo também. A palavra “violência” é um talismám, um abracadabra que esconde o mundo sob um manto de lugares comuns, sobre-entendidos silogismos. É precisso ver debaixo, desmontar essa gramática do poder, para ser capaz de pensar por um mêsmo. Nom estranha que a inteligência do Bloco, instalada como está num universo povoado unicamente polos signos e os discursos, basicamente os dominantes, tanto nos seus postos institucionais como nos seus empregos funcionariais e oficinistas, seja incapaz já sequera de imaginar que o mundo pode ser outra cousa, mas a malta normal, os nacionalistas que ao menos retenhem umha parte de si mesmos fora dos espaços pautados polo espectáculo e as suas ilusons, que sabem medir ainda o que é um golpe, um estorrido, um sobressalto ou umha ferida simples e corrente, deveriam ser capazes de abstraer-se de todo este “escándalo”, que nom é mais que frivolidade e pose. (Com isto nom quero alentar ninguém a demoler as urbanizaçons que inçam a nossa Terra, olho! Rapazes, nom se vos ocorra tal cousa...Mas, quando acontece, raras vezes, há que reagir e analisar sem perder o sentido da medida. Isso é o que queria dizer. Nom será delito, pois nom?) 8 de Março de 2008
2ª PARTE
Devemos ser cuidadosos na linguagem. As luitas na Modernidade plantejam-se como umha qüestom de Direito (direito de autodeterminaçom), embora nom o sejam. @s luitadores/as julgam afrontar um conflito exprimível em termos jurídicos, quando na realidade som dous universos que colisionam e se aniquilam até a desapariçom ou o equilíbrio respeitoso, até a assimilaçom ou a coexistência. Mas um universo fala na linguagem do outro porque nom conhece a sua própria, e isso nom o impede de exprimir os seus anseios e identificar os seus inimigos. Onde é que esta o problema? Há algo a ganhar substituindo as palavras da modernidade – liberdade de direitos , democracia, igualdade, ... – por outras mais acordes do substrato que sustenta a luita? Pom-te no caso dos movimentos indigenistas ou religiosos: que sentido teria que começassem a explicar-se em termos de “sociedade produtora de mercadorias”, “espectáculo”, “acçom constituinte”, etc? Como os nacionalismos agem de facto minando o espectáculo e constituindo à sua margem, mas explicam-se com as palavras da sua época e do seu país. Para que iamos nós seguir outro caminho? O nacionalismo tem duas linguagens paralelas: a moderna, porque esta empapado contra a sociedade contra a que pugna, e a própria, que porém nom é a que nós empregamos nas nossas discusons mas outra, tam particular e circunstancial como a zapatista, por exemplo. Pátria Terra, devanceir@s, vontade de ser, cousas assim. Explico-me? A ver. Tu lembras-te quando algumhas companheiras adquirírom alguns conhecimentos de antropologia feminista? Bem, é interessante e útil saber isso, as raizes antropológicas da sociedade, as explicaçons teóricas do que acontece, todo isso ajuda a reconhecer os problemas e a procurar soluçons. Mas o discurso dumha comissom da mulher dumha organizaçom juvenil nom pode ser umha liçom de antropologia. Os seus panfletos, as suas roldas de imprensa, os seus mítins, ... tenhem que ser feministas, isto é, umha defesa da mulher desde umhas posiçons que resultam do papel que se lhe atribui na comunidade que se constrói. O contrário é inútil e ridículo, próximo ao delírio dos grupos de extrema-esquerda de linguagem críptica, ou as bandas de rock autónomas que cantam letras sobre as verdades nómadas, a economia libidinal e a mitopoiese. Temos que ser cudados@s com a linguagem. As mudanças ao nível que falamos som perigosas e cumpre prepará-las com precisom de cirurgiao, porque se trata nom, quiçá, do motivo polo que luita a malta, mas sim em todo caso das palavras com que designa tal motivo. Um pequeno erro e, com a confusom, alguns podem perdê-lo de vista. A liberdade, a Pátria, os ancestros, Allah, a raça preta ou o catolicismo, som só palavras. Mas “há que ter cuidado com as palavras, porque as palavras som as “cousas”, como dizia o outro, exagernado um pouco. Atençom: a maioria de luitadores/as que dominam e manoseiam análises como as nossas; vem passar as luitas que as suas ideias promovem (constituintes) ao seu carom e nem sequera se dam conta. A maioria dos nossos irmaos e irmás que sim luitam, nem conhecem nem se identificam com tais teorias metapolíticas, nem falta que fai. @s galeg@s pecamos de com freqüência de ideologistas e palavreir@s. Eu nom creio que nestes momentos vaiamos por esse caminho, estou contente com o que se faz e com como se verbaliza, mas o perigo esta aí, tu que opinas? Maos à obra. 8 de Março de 2008
1ªPARTE
Até agora as chamadas telefónicas funcionavam assim: tu escolhes até dez números de pessoas entre as que tenhem autorizaçom para visitar-te, acreditas mediante factura que o telefone pertence à pessoa , e eles catastram os números num sistema informático que governa as cabinas telefónicas da prisom. Cada vez que queres falar com algum familiar ou amigo tens que introduzir o teu número de preso na cabina, com o qual accedes à tua “conta” que permite oito telefonemas de cinco minutos por semana aos números cadastrados. Nom há hipótese, naturalmente, de receber chamadas, apenas de realiza-las. Anteontem entregarom-nos um papel aos presos políticos anunciando-nos a nova ocorrência de Mercedes Gallizo encaminhada a “favorecer a reinserçom social das pessoas presas”, ou como seja que diz a constituiçom deles: desde agora excluem-se da listagem todos os telefonemas que nom pertençam a familiares directos. Nom se aduz nengum motivo concreto, como os socorridos “motivos de segurança” nem nada do género: é assim de pronto. Um suporia, e acertaria possivelmente, que se trata dumha nova vingança contra a esquerda abertzale, embora esto aconteceu antes – justo o dia antes – de que liquidassem ao socialista aquele de Arrasate, mas é dificil sustentar essa opiniom quando durante todo o ano de cessar-fogo nom houvo um só gesto de relaxaçom na vida carcerária, ao contrário, começarom a apertar um pouco antes deste e nom deixárom de fazê-lo até hoje. Os governos do PSOE dirigem as prisons com umha sanha mesmo superior à dos governos do PP, e especializam-se neste tipo de maldades rebuscadas que denotam graves doenças mentais e nos políticos que as pergenham e nos funcionários que as aplicam. Quase desejaria que amanhá ganhasse o PP: estes arruinam-te a base de compridas condenaçons, mas depois deixam-te aí atirado no pátio sem vir meter-che o dedo no olho cada dia. Ao menos é o que dim os bascos deste módulo que já conhecêrom uns puocos governos desde que entrárom na cadeia. A que malnascid@ se lhe pode ocorrer a interdiçom de falar com amig@s? Porque há que dizer que o sistema telefónico, para além de controlar os números a que chamas, ocupa-se de gravar as conversaçons dos que temos intervidas as comunicaçons, com o qual um eventual risco de transmitir consignas ou informaçons evapora-se. Querem simplesmente isolar-nos da sociedade, que já agora é antónimo exacto da cacarejada “reinserçom na sociedade”. Lembro-me que em Cáceres já aplicavam este critério, e lembro-me que eu conseguira evitá-lo ameaçando o director com denunciá-lo ao julgado e com liá-la parda, até ser o único preso que podia telefonar amig@s. Mas alí a ideia fora umha demência privada do director, e agora adquiriu carta de natureza grazas a Gallizo. Nom há soluçom. Por enquanto ficaremos os quatro sem poder falar mais que com os pais, e nom há que descartar que logo nos proibam até receber visitas ou escrever cartas a outras pessoas. Isto vamo-lo pelejar e provavelmente o perdamos, mas se com isso querem realmente cortar-nos os laços com as amigas e companheiros, entom equivocam-se como levam décadas equivocando-se connosco. Pior para nós, mas nom seremos os únicos a pagar polos seus equívocos. Actualizaçons
Esta-se a actualizar o blogue com cartas que nom foram publicadas anteriormente. Assim, desculpade a desordem das datas
26 de Janeiro de 2008
É curioso como o independentismo catalám leva quase sempre um ritmo paralelo ao nosso ao menos desde os anos oitenta. Agora mesmo vivem um momento com muitissimas semelhanças, embora também diferenças essenciais. Nom trato de fazer nengumha equivalência nem sequera me encontro mui cómodo falando dum tema tam concreto quando levamos fora uns quantos anos e perdemos um pouco de perspectiva, mas, com as devidas reservas, sim me atrevo a assinalar as semilitudes entre a qüestom da organizaçom política nos Países Cataláns e na Galiza. Se o imperativo de aprender das experiências de outros povos é algo mais que palavrada, eis umha ocasiom esplêndida para aplicá-la.
Como nós @s cataláns carecem de umha organizaçom política única desde finais de 80, existindo na actualidade vários partidos bem como umha organizaçom juvenil com forte papel político. Tendo-se embarcado desde fins de ´90 em vários processos unitários frustrados, nestes momentos nom esta aberta nengumha via para a constituiçom dessa força política, de facto entre a militáncia predomina o cansácio e o fastio para esse tema. Porém, o movimento cresce, ganha força em todo o território, age com imaginaçom em muitas frentes e artelha facilmente pontos de confluência nos lugares e para os projectos que cumpre, a concorrência de maior número de famílias possíveis. É o caso das Candidaturas de Unitat Popular (CUP), listagens assembleárias que se apresentárom às eleiçons autárquicas com excelentes resultados e às europeias com bastante maus. Como era previssível, a formaçom das CUP reavivou a discussom sobre a unidade orgánica, vista agora como mais viável desde que de facto se convive relativamente bem nesse projecto eleitoral. E umha posiçom, polos vistos nom minoritária, propor fazer das próprias CUP o germe do partido político: sendo como som já unitárias, que passem a ocupar-se de todos os temas, nom apenas os institucionais. Esta é a postura, da-me a impressom, de muit@s militantes das CUP que nom trabalham em nengumha outra organizaçom (Maulets, Endavant, MDT, ...), e que nom participárom nas anteriores tentativas unitárias. As organizaçons, no entanto, amossam-se reácias. A maioria ao menos. É natural: sabendo como costumam acabar esses processos, dá medo arriscar umha carta tam útil como som as CUP. Isso, por umha parte. Pola outra... muit@s, atendendo aos bons resultados das iniciativas sectorais do independentismo e aos péssimos que acaba dando a convivência partidária, até antes de se fundar o partido, acabam por nom encontrar nengumha utilidade ao tempo dedicado à reorganizaçom. E dizem: “As cousas nom estám assim tam mal desta maneira confluimos nas CUP quando as eleiçons, na Plataforma pola Autodeterminaçom quando o Estatut, na Comissom Onze de Setembre, e em geral onde e quando faga falta. E quando nom, cada uma a fazer País onde se encontre e com quem se encontre”. Entre nós a situaçom é parecida, com Causa Galiza no lugar das CUP. Até é fácil imaginar umha soluçom semelhante para afrontar os processos eleitorais em que corresponda participar. Entom como nos Países Cataláns, temos que perguntar-nos: merece a pena sacrificar o tempo e esforços, arriscar espaços comuns e entendimentos, para constituir um partido político? Para que o necessitamos exactamente? Nom digo que seja umha ferramenta inútil nem nociva, olho, sei bem que tem a sua utilidade. Parece-me que em certo sentido é umha “necessidade adquirida”, isto é, que é útil porque, se nom existe, a gente nota a sua falta e nom percebe um movimento completo. Ora, cobrir essa necessidade já é umha utilidade e eu nom o nego. Só que nom quero mitificá-la, como tantas vezes, pensando que todo correrá bem se nom reunimos numha única sigla e até entom, continuaremos em minoridade; ao revés, quero calcular o seu valor exacto para nom esbanjar mais horas subindo e baixando a pedra pola ladeira da montanha. A mim, nestes momentos nom me dam as contas, e nom me preocupo com isso porque vejo soluçons alternativas, digamo-lo assim, “subóptimas”, muito satisfatórias e até mais empolgantes que a convencional. Mais avante, já se verá. 2 DE FEVEREIRO DE 2008
2 DE FEVEREIRO DE 2008
Um movimento de libertaçom nacional sem organizaçom política global pode arranjar-se de diversas maneiras. Ocorre-se-me umha: por meio de assembleias. Explico-me logo, pero antes reitero que por causa da distáncia e do pouco contacto com o dia a dia do País, estas linhas nom se tenhem que ler como umha proposta, nem sequera como umha opiniom definitiva; mais bem som especulaçons ao ar, cuja valia nem eu afianço e que, no maximo se referirá ás sugestons que suscite em quem as leia e reflicta desde a luita quotidiana na Galiza. Entom, suponhamos que recusamos emprender a enésima fundaçom dum partido político, sem, naturalmente, recusar intervir politicamente entanto que movimento. Como afrontamos as tarefas convencionalmente assignadas ao partido? Em primeiro lugar, haveria que esclarecer que os partidos, tais como os conhecemos -incluídos os nossos- som criaçons da modernidade destinados a gerir o ámbito separado do poder por meio da representaçom, no duplo sentido da cenificaçom teatral e a presunçom de que umha parte da sociedade, os eleitores, delegam neles a sua dimensom política. Noutras palavras, se o independentismo carece de partido, logo os independentistas carecem de representaçom. Pessoalmente nom me parece umha eiva e até encontro vantagens a essa situaçom, mas é claro que, numha sociedade espectacular como é a nossa, nom dispor dum representante é tanto como nom poder intervir em absoluto no espectáculo, e sabemos que por vezes convém fazê-lo. A segunda funçom, mais dentro da escola conspirativa, centrada na coordenaçom de rebeldes para umha causa comum, na Galiza, no independentismo, bem sabemos que nom a cumpre um partido unitário, que sempre demonstrárom umha força centrífuga espantosa. No entanto, os militantes coordenam-se igualzinho, e nom apenas isso: sem comité central que o planifique, de facto, establecem-se dinámicas nacionais, verdadeiras estratégias que se aplicam localmente sem necessidade de disciplinas, mas pola simples convergència dos exemplos com os desejos. Concretizemos: esta semana, este mês, para que é que teriamos necessitado um partido? Por exemplo, para apresentar candidaturas ás eleiçons espanholas, ou entom para decidir que nom nos apresentamos, ou que pedimos a abstençom. Para organizar umha recuperaçom popular do Entruido. Para denunciar a aprovaçom do PGOU de Vigo. Para preparar, impulsionar e coordenar a participaçom na campanha de Galiza nom se Vende. Para divulgar a posiçom independentista perante os orçamentos aprovados no meu concelho polo PSOE, com a abstençom do Bloco. Para publicar comunicados de imprensa dizendo que “O que dixo Feijóo é...”, “As afirmaçons de Tourinho sobre a Cidade da Cultura demonstram...”, “Quintana continua fazendo o jogo a...” Eu o que digo é que algumhas destas tarefas é preferível que nom as acometa nengum partido, porque já se ocupam organizaçons locais ou nacionais específicas, permanentes ou criadas para a ocasiom, digo que outras podem ser assumidas por assembleias; e digo que outras, ainda, nom devemos cumpri-las em absoluto. As assembleias. Como poderiam materializar-se? A minha ideia é a seguinte: as assembleias nom seriam permanentes, criariam-se para cumprir um trabalho e depois desaparecer, nom se veriam afectadas por acordos de outros ámbitos, nem sequera de assembleias anteriores e nom se arrogariam a representaçom de nada excepto dos seus participantes. Sem vontade de representar, mas de agir, a sua vida expiraria com a acçom, dissipando-se no ar as eventuais ánsias de controlo e de figuraçom que alguns pudessem albergar, já vácuas de seu. A participaçom seria livre e individual, o voto indelegável, as decisons inapeláveis mas com o recurso ao abandono sempre aberto. Que numha assembleia se margine umha corrente nom garantiria que na seguinte acontecesse o mêsmo, nem que essa corrente convoque umha outra assembleia segundo a sua concepçom: num modelo assim, as cisons nom causam traumas nem fissuras insalváveis; já haverá outras assembleias para outros trabalhos onde coincidamos. As asembleias convocaria-as qualquer um, publicando a convocatória nos meios de comunicaçom populares e assinando com nomes e apelidos de todos os convocantes. Teria de estabelecer, ainda, um canal para o envio e distribuçom das propostas, de maneira que os assistentes se podam informar e podam propor antes da sessom. Segundo se formule a convocatória os promotores sabem quem assistirá: se querem que participem todos os movimentos sociais nom se anunciará umha “assembleia para umha resposta social-demócrata (ou marxista, ou libertária) á reforma laboral”, por exemplo. Ás vezes, legitimamente, buscará-se precisamente essa distinçom para chegar a um resultado concreto, nom global. Como funcionariam, com que regras, quem as moderaria? Nem ideia. Talvez o regulamento fosse o primeiro a ser aprovado, entre os propostos polos participantes, e se escolhesse umha mesa por eleiçom directa. O normal é que ao pouco tempo assentasse um regulamento, igual que um sistema concreto de convocatória (anúncio no Novas da Galiza e em Arredemo, por exemplo), estabilizando-se o procedimento na medida do possível. Que opinades? É mais factível construirmos um partido comum ou um procedimento comum? O que tem mais riscos, mais custos e arrastra mais fracassos? Em qual envolveríamos mais malta, e com mais vocaçom de acçom? Imagino vários casos concretos que se solucionariam mui bem com as assembleias: a convocatória do dia da Pátria e as candidaturas eleitorais. Nom se conseguiria assim certo equilibrio, depois de tantos experimentos organizativos? Nom proporcionaria certo umha certa estabilidade a meio prazo?
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